terça-feira, 22 de julho de 2014

Coisas sérias para pensar...

por Dom Henrique Soares da Costa (in Facebook, 22/07/2014)*


“Em cada forma de empenho pela liturgia o critério determinante deve ser sempre o olhar dirigido para Deus.
Nós estamos diante de Deus: Ele nos fala e nós falamos com Ele.
Quando nas reflexões sobre a liturgia nos perguntamos como torná-la atraente, interessante e bela, o jogo já está feito! Ou ela é opus Dei (obra de Deus), tendo Deus como sujeito específico, ou não é!
Neste contexto, peço-vos: realizai a sagrada liturgia tendo o olhar em Deus na comunhão dos santos” (Bento XVI).

Profundas, as afirmações do Papa Bento!
Toda liturgia deve ser "versus Deum", isto é, voltada para Deus.

É ação da Igreja para o louvor, adoração e glorificação de Deus e, consequentemente, para a santificação da humanidade.
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A liturgia não é um show, um teatro ou uma festa que fazemos para o povo; ela não é espaço para a criatividade do padre ou mesmo da Assembleia que celebra.

A Liturgia é a ação do Povo santo de Deus no seu serviço ao Senhor; é espaço de Deus antes de ser espaço do homem; é manifestação de Deus, do Deus vivo e santo!

Em cada celebração litúrgica, a palavra que deveria ressoar aos nossos ouvidos como uma música de fundo é a advertência do Senhor Deus a Moisés: "Tira as sandálias dos pés porque o lugar em que pisas é santo!" Como adverte a Epístola aos Hebreus: "Vós não vos aproximastes de uma realidade visível!" (12,18).
Trata-se de algo muito maior que aquilo que nossos sentidos podem captar!

Isto mesmo: os ritos, os gestos, os símbolos, as palavras, os elementos vários: tudo reflete o Mistério, tudo remete ao Mistério e tudo pelo Mistério é ultrapassado! Na ação litúrgica da Igreja, o Cristo Senhor torna presente, atual e atuante a Sua perene ação salvífica!

Na liturgia Deus nos visita em Cristo, Deus torna presente no hoje da nossa pobre existência, no aqui do caminho da criação inteira, a ação salvífica de Cristo Senhor, Aquele que continuamente vem à Sua Igreja "pela água do Batismo e o sangue da Eucarisita" (cf. 1Jo 5,6), na potência do Espíritio, "rio de água viva que alegra a Cidade de Deus" (Sl 46/45,5; Ap 22,1), que é a Igreja!
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A liturgia não é algo fabricado por nós, com joguinhos, trejeitos e coreografias: “o jogo já está feito”, dado pelo próprio Senhor Deus, com seu núcleo vindo da liturgia judaica, cristificado e transfigurado pelo Cristo na Sua Páscoa e recebido pela Igreja, desenvolvido orgânica e serenamente no correr dos séculos, de modo orante e receptivo ao impulso do Santo Espírito que ora discretamente no coração da Comunidade eclesial, dirigindo-a cada vez mais para o conhecimento amoroso, saboroso, sapiencial do Cristo Jesus.

Rito não se inventa do nada ou da nossa criatividade de momento!
Não existe rito de encomenda;
de encomenda existem as coreografias, que atrapalham, empanam, vulgarizam e esvaziam a nobreza cheia de graça salvífica que o rito traz em seu seio precisamente porque instituído no Espírito do Santo;
de encomenda existem os inúmeros e inoportunos comentários, que transformam a deliciosa simplicidade litúrgica numa aula chata, de cunho meramente conceptual... Tão chatos e inúteis os comentários que ninguém recorda o que eles dizem!
Sobram comentaristas onde faltam mistagogos (celebrantes que sabem conduzir os fieis aos Mistérios)!
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O que torna a liturgia atraente não são nossas invenções, mas unicamente a Presença sacramental, misteriosa e salvífica do Deus santo, Mistério eterno e vivificante: Ele nos cura, nos recentra, nos consola, nos corrige, nos adverte, nos salva.
Ele, o Senhor, nos gestos e palavras da liturgia, não o celebrante, como se fosse um animador de auditório!

Síntese feliz, o apelo final do Papa Bento XVI: realizar a liturgia tendo o olhar em Deus, voltados para Deus (“Corações ao Alto!”), no seio da Igreja, comunhão dos santos, dos santificados para ser Assembleia santa, Povo sacerdotal!

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* Bispo de Palmares-PE

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Do encontro marcado

Escutai, ó Senhor Deus, minha oração, atendei à minha prece, ao meu clamor. Dos confins do universo a vós eu clamo. Pois, ouvistes ó Senhor, minhas promessas e me fizestes tomar parte na herança daqueles que respeitam vosso nome.  Dos confins do universo a vós eu clamo. Sl 60 (61), 2-3a.6


Por que devemos rezar?

Apoiando-nos no que nos explica São Tomás de Aquino em sua Suma Teológica II-II, q. 83, a.2:


"[...] deve-se considerar que a providência divina não somente determina os efeitos, mas também de quais causas, e em que ordem são causados. Entre as múltiplas causas, há também as que são atos humanos. Donde ser necessário, não que os homens façam alguma coisa para, pelos seus atos, mudarem o que foi disposto pela providência divina, mas que, pelos seus atos, realizem alguns efeitos, segundo a ordem disposta por Deus. Isto acontece também nas causas naturais e algo semelhante na oração. Não oramos para mudar o que foi disposto pela graça divina, mas para que façamos o que Deus dispôs para ser realizado devido à oração dos santos. Por isso, escreve Gregório: "Pedindo, os homens mereçam receber aquilo que Deus onipotente determinou conceder-lhes desde a eternidade.

[...], portanto, deve-se dizer que não é necessário apresentar as preces a Deus para torná-Lo ciente dos nossos desejos ou indigências, mas para que nós mesmos consideremos que, nesses casos, se deve recorrer ao auxílio divino”.
Daí, falo:
O encontro com Jesus por meio da oração é meio de Salvação e obrigatório.
Rezar o Rosário, a Liturgia das Horas ou fazer a Lectio Divina não se trata de preciosismo ou coisa para quem tiver tempo ou disposição.
É obrigação! Deve o servo prestar contas ao seu Senhor e isto se faz pela oração, para que não pensemos nós que as palavras e as ações que nos dispomos a dar são nossas e o afago do povo de Deus sejam por mérito nosso.
É por causa de Cristo! É de Cristo todo elogio, todo afago e mérito. Nosso dever é prestar contas a Ele em oração, para que também Ele nos corrija e nos ensine a melhor desenvolver as ações do Evangelho, quer anunciando, quer por ações manuais.
Evita a soberba, o orgulho e a sedição quem se obriga a rezar. 

Torna-se tendencioso à egolatria ou à idolatria quem julga não ser necessário rezar ou alega não ter tempo para rezar.
Invalida as ações, por mais humanitárias que se possam dizer, quem as faz sem o olhar e o zelo da oração.
Portanto, obriguemo-nos à oração para que não nos tornarmos idólatras!


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Eudes Inacio, sJpVM
servo de Jesus pela Virgem Maria