terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

DOUTRINA DOS OITO VÍCIOS

É longo mas é bem interessante, vale a pena ler para conhecer. "Os monges distinguem diversas espécies de demônios. O critério para a distinção que eles fazem é fornecido pela assim chamada 


 
A doutrina dos oito vícios é um capítulo interessante da psicologia monástica. Foi desenvolvida sobretudo por Evágrio Pôntico e Cassiano, mas aparece também em Clímaco, em Máximo Confessor e em outros. Nela se distinguem estes oito vícios: gula, luxúria, cobiça, tristeza, ira, acídia (preguiça), vaidade e orgulho.

A cada um destes oito vícios Evágrio atribui um demônio, que determina suas características. Nem todos provocam os mesmos pensamentos. Um provoca pensamentos de cobiça, outro pensamentos de orgulho. Nisto os demônios se distinguem também de acordo com sua espécie. Alguns são leves e atacam de repente - por exemplo, o demônio da luxúria. O demônio da acídia, pelo contrário, é pesado e pouco a pouco oprime a alma com sua força cada vez maior.

A estrutura dos oito vícios se dá de acordo com a tríplice divisão da alma segundo Platão. Os três primeiros vícios são atribuídos a parte dos desejos (epithymia), os três seguintes a parte excitável ou emocional (thymos), e os dois últimos a parte espiritual (nous).

Os três primeiros vícios - GULA, LUXÚRIA e COBIÇA - são instintos básicos fundamentais. Poderíamos atribuí-los a fase oral, anal e edílica no desenvolvimento da primeira infância. Estes instintos fazem parte da natureza humana, e não nos é possível simplesmente eliminá-los. Eles têm que ser integrados, é preciso que lhes seja imposta a reta medida.

Os três vícios seguintes - TRISTEZA, IRA e ACÍDIA - são estados negativos de ânimo, muito mais difíceis de ser superados. Estes estados não se deixam dominar como os instintos. O reto convívio com eles exige um equilíbrio da alma e uma maturidade interior, a que só podemos chegar quando nos ocupamos honestamente com os pensamentos e os estados de ânimo, e quando “nos abrimos” sem reservas para Deus.

Mais difícil ainda é combater os dois últimos vícios - VAIDADE e ORGULHO -, porque o espírito é o mais difícil de ser domado. Aqui é onde com mais facilidade os demônios podem enganar alguém.

A respeito dos oito vícios Evágrio fala de diferentes maneiras. Ele pode falar de impulsos e estados de ânimo, ou de pensamentos de cobiça ou de ira, ou então falar do demônio da cobiça, do demônio da ira. Ele, por conseguinte, personifica o vício. É como se fosse um interlocutor autônomo, um demônio que tenta alguém e que procura impeli-lo para um instinto, para uma emoção ou para uma cegueira espiritual. E cada um dos oito demônios possui sua técnica própria. O fato de identificar os demônios com os oito vícios mostra mais uma vez que na demonologia de Evágrio não se trata tanto de fenômenos extraordinários, como possessão, mas sim do elemento tenebroso e mau que cada pessoa experimenta em si, da luta contra as falsas atitudes interiores que procuram se estabelecer em nós, desta maneira criando obstáculos a nossa abertura para Deus. Evágrio descreve um por um os oito demônios que se encontram por trás dos diversos vícios.

I. O DEMÔNIO DA GULA
O demônio da gula rapidamente sugere ao monge o fracasso de sua ascese. Coloca-lhe diante dos olhos o estômago, o fígado, o baço, a hidropisia, uma doença prolongada, a falta do necessário, a falta de um médico. Muitas vezes leva-o a pensar também em determinados irmãos que foram vítimas dessas doenças. Às vezes ainda impele esses doentes a dirigirem-se aos ascetas e falarem-lhes de seu destino, pretextando que vieram a se tornar assim por causa da escese (P7).

O demônio da gula, aqui, nunca instiga para comer em excesso. Ele apenas apresenta motivos que aparentam ser válidos e razoáveis contra o jejum. O demônio é por demais engenhoso para impelir alguém a um vício tão primitivo quanto a gula. Seu método é a racionalização. Motivos razoáveis escondem as necessidades e desejos que se encontram por trás de tudo isto. Assim o demônio esconde-se atrás da razão para não precisar apresentar-se abertamente ao monge como pernicioso e mau. Ao que tudo indica, Evágrio percebeu este mecanismo da racionalização.

II. O DEMÔNIO DA LUXÚRIA
O demônio da luxúria força a desejar outros corpos. Ele ataca cruelmente os que praticam a continência, para que a abandonem, já que não leva a nada. Enlameia a alma e a seduz a ações vergonhosas. Fá-la pronunciar certas palavras e tornar a ouvi-las, como se o objeto estivesse visível e presente (P8).

O demônio da luxúria trabalha sobretudo através da fantasia, que ele enche de imagens e de pensamentos desta maneira obscurecendo a razão. Ataca o monge de repente, quando ele menos espera, e imediatamente desperta nele uma paixão violenta (cf. P51). Este demônio costuma visitar os monges sobretudo a noite. Às vezes Evágrio diz que o demônio da luxúria entra diretamente no corpo e o incendeia (cf. Anti II, 45).

III. O DEMÔNIO DA COBIÇA
A cobiça lembra idade avançada, incapacidade das mãos para trabalhar, a vinda dos tempos de necessidade e de doença, o amargor da pobreza e a vergoha que significa ter que esperar dos outros o necessário (P9).

Também aqui o demônio não aborda diretamente o desejo, e sim apresenta toda sorte de razões que falam contra a pobreza e a generosidade. Não é o instinto que é estimulado mas sim as razões para refreá-lo que são negadas, pintando-se os perigos que daí podem resultar. Os pensamentos insuflados pelo demônio da cobiça produzem medo e timidez, privam a pessoa do impulso interior para refrear o instinto e dirigi-lo para caminhos ordenados. Uma vez que não enxerga nenhuma motivação para se esforçar e para impor limitações, a pessoa - sem perceber - volta-se para o vício da cobiça. Deixa-se dominar pelo demônio da cobiça, porque na própria mente são vistos como maus todos os motivos para lutar contra o instinto. Aquele que já conviveu com viciados em drogas e com os argumentos que eles apresentam, sente-se confirmado pelas observações de Evágrio. Também aqui o que é questionado, com motivos aparentemente razoáveis, são todos os motivos para nos impormos restrições. Mas na realidade o que está por trás de todos estes motivos é a infantil necessidade de possuir sempre mais. Por não haver aprendido, quando criança, a renunciar e a adptar-se à realidade, a pessoa é agora dominada pelo instinto, ou, como diz Evágrio, posta em xeque pelo demônio da cobiça. Segundo Freud, para nos adaptarmos à realidade não se pode dispensar uma certa renúncia ao instinto.

IV. O DEMÔNIO DA TRISTEZA
A tristeza surge as vezes por frustração dos desejos, outras vezes ela é uma consequencia da ira. Quando nasce da frustração dos desejos, acontece assim: Primeiramente surgem pensamentos que fazem a pessoa lembrar-se de casa, dos pais e da vida passada. E quando veem que a alma, em vez de resistir a estes pensamentos, as acolhe e se alegra interiormente com o prazer, então eles tomam posse da alma e mergulham-na na tristeza porque já não se tem mais o que se tinha antes, nem se pode ter por causa da vida presente. E quanto mais ela se alegrou com os pensamentos de antigamente, tanto mais se desencoraja e sente-se oprimida pelos que vem depois (P10).

A causa última da tristeza é para Evágrio um apego exagerado ao mundo:

Quem ama o mundo há de experimentar muita tristeza; mas quem despreza as coisas deste mundo há de encontrar alegria em tudo (Geister: PG 79, 115)

Quando alguém deseja muita coisa da vida, facilmente ele fica decepcionado e cai na tristeza. Esta oprime o coração do homem, pressiona-o, ao passo que a alegria o dilata (diacheo e systello). Outra caracteristica da tristeza é o apego ao passado. No passado tudo era melhor e mais bonito. O olhar para o passado torna a pessoa cega para o presente. Ela já não se abre mais para a realidade, mas antes refugia-se nas aparências transfiguradas do passado. E logo que é obrigada a confrontar-se com o presente, a pessoa se enterra em sua tristeza, de onde não se deixa mais retirar por coisa alguma.

A tristeza enfraquece a razão contemplativa. Nenhum raio de sol penetra nas profundezas da água, e a visão da luz já não clareia o coração invadido pelas sombras. O nascer do sol é uma alegria para o homem, mas mesmo com isto a alma pertubada experimenta sentimentos desagradáveis (PG 79, 1157).

V. O DEMÔNIO DA IRA
Estreitamente ligada com a trsiteza está a ira. Cassiano coloca a ira antes da tristeza, e mesmo Evágrio, em seu escrito sobre os oito espíritos do mal (PG 79, 1150ss), trata da ira antes da tristeza. Pois por vezes a tristeza nasce da ira, que Evágrio descreve da seguinte maneira:

A ira é uma paixão muito ardente. Dizemos que é como uma fervura da parte emocional da alma contra quem nos fez uma injustiça ou quem nos parece haver feito uma injustiça. Ela azeda a alma o dia inteiro, mas sobretudo arrasta consigo a razão durante a oração, ao manter diante dos olhos a face do ofensor. Quando perdura e se transforma em ressentimento, provoca confusão a noite, desmaio e palidez do corpo e ataques de feras selvagens. Estes quatro sinais que se seguem ao ressentimento são quase sempre acompanhados de numerosos outros pensamentos (P11).

A ira obscurece o espírito do homem, rouba-lhe a clareza.

Os pensamentos do homem irado são brotos de víboras venenosas e devoram o coração que os faz nascer (PG 79, 1156).

As emoções violentas arrastam consigo o homem, impedindo-o de pensar com clareza. Seu efeito sobre a alma é tão nefasto assim porque através delas o inconsciente negativo penetra na consciência, com todas as imagens que provocam o medo e que passam a dominá-lo. O homem fica de tal forma à mercê de seus afetos que se deixa conduzir por eles, e sobretudo deixa-se levar à vingança. Ira clama por vingança. Quando a vingança não é possível, a ira se transforma em ressentimento, um estado de ânimo de permanente e raivosa insatisfação, mas também em tristeza. Quando não resiste ao afeto da ira, o monge é na verdade devorado por ela, como diz Evágrio, ou, na linguagem de Jung: o eu perde a compostura, “quer dizer, não consegue mais defender sua exitência contra o assalto dos fatores efetivos, uma situação que pode ser encontrada com frequência no início de uma esquizofrenia”.

VI. O DEMÔNIO DA ACÍDIA
O demônio da acídia, também chamado demônio do meio-dia, é o mais trabalhoso de todos. Ele ataca o monge pela quarta hora e o sitia até a oitava hora. Primeiro faz com que o sol se mova muito devagar, ou que não se mova de maneira nenhuma, e que o dia pareça ter 50 horas. Depois impele o monge a sempre olhar para a janela e a correr para fora da cela, para ver se o sol ainda está longe da nona hora, e olhar ao redor para ver se não vem chegando algum irmão. Além disso injeta uma aversão contra o lugar em que se vive e contra a própria forma de vida, contra o trabalho manual, e inocula a idéia de que a caridade desapareceu entre os irmãos e que não existe mais ninguém que possa trazer algum consolo. E se por estes dias alguém ocasionou-lhe uma ofensa, o demônio utiliza também isto para aumentar a aversão. Faz com que o monge anseie por outros lugares e onde possa encontrar mais facilmente o que precisa e onde possa encontrar uma vida menos trabalhosa e mais útil. E acrescenta que agradar ao Senhor não depende do lugar. Deus, diz ele, pode ser adorado em toda parte. A tudo isto acrescenta ainda a lembrança dos parentes e de sua vida passada, pintando-lhe como a vida é longa, e mantendo-lhe diante dos olhos as dificuldades da ascese. Mobiliza, como se diz, todas as suas baterias para que o monge deixe sua cela e se desvie de sua rota. Atrás deste demônio não segue diretamente nenhum outro: um estado de paz e de indizivel alegria tomam posse da alma após o combate (P12).

A acídia é o abatimento do corpo e do espírito, a moleza e frouxidão. Para os antigos monges, o demônio da acídia é o mais perigoso de todos. Ele vem acompanhado por quase todas as tentações e pensamentos. Enquanto os outros demônios não atingem senão uma parte da alma, o demônio do meio-dia ocupa a alma inteira (cf. P36). Ele sufoca a razão e rouba da alma todo as suas forças. A pessoa não tem mais gosto por coisa nenhuma.

Cassiano chama a acídia também de tédio ou temor do coração, opressão interior. A falta de vontade impele a pessoa ou a dormir ou a fugir da cela, a procurar agitação. Evágrio descreve com bastante humor o comportamento de uma pessoa acometida de acídia:

O olho do preguiçoso se volta muitas vezes para a janela e seu espírito imagina as pessoas que vêm visitá-lo. Range a porta, e logo ele se levanta, ouve uma voz e olha curioso pela janela, de onde não se afasta, ouve uma voz e olha embasbacado para fora. Na leitura o preguiçoso boceja muitas vezes e sente-se poderosamente atraído pelo sono; desvia os olhos do livro e os esfrega, voltando-os para a parede. Depois olha de novo para o livro, lê algumas palavras, esforçando-se inutilmente por perceber o sentido das palavras. Conta as páginas do livro e examina a escrita. Censura a escrita e o feitio, e por fim fecha o livro e o coloca sob a cabeça para dormir. E dorme um sono leve, porque depois a fome desperta a sua alma, e ele a sacia (Geister: PG 79, 1160).

Gregório Magno conta entre as consequencias da acídia: desespero, desânimo, mau humor, azedume, indiferença, sonolência, tédio, fuga de si próprio, aborrecimento, curiosidade, dispersão no falar, agitação do espírito e do corpo, inconstância, pressa e vacilação. A acídia é a grande tentação dos eremitas. É uma questão de vida ou morte. Tudo é questionado, falta todo impulso interior, o coração parece gravemente enfermo, a alma confusa.

A alma adoece e sofre, mergulhada no amargor da acídia. Em tal excesso de sofrimento abandonam-na todas as forças. Sua capacidade de resistência fica prestes a abandonar o campo a um demônio tão poderoso. Ela perdeu a cabeça, comportando-se como criancinha que chora e se lamuria sem parar, como se não houvesse mais qualquer esperança nem consolo (Ant VI, 38).

Todo o organismo da alma fica abalado. O homem sente-se nos limites de sua condição humana. Recai num comportamento infantil, busca quem dele se compadeça.

André Louf considera a acídia a crise em que cai necessariamente aquele que elimina todas as distrações. A acídia é “uma espécie de vertigem diante do vácuo entre a alma e Deus, impotência de abrangê-lo ou, simplesmente, de suportá-lo”. Na acídia o monge chega às raias da loucura. “A ruina espiritual e a decadência psíquica o espreitam”. Mas aquele que atravessa esta crise, aquele que se mantém firme, ou que simplesmente a suporta, este experimenta uma profunda paz e alegria. “Um homem novo, mais harmoniosamente integrado, é o que sai desta provação”.

A acídia corresponde ao estado que M.L. v. Franz chama de “perda da alma”. “A perda da alma aparece como uma repentina falta de disposição, como um cansaço. A pessoa deixa de ter alegria na vida, sente-se vazia e inerte, para ela nada mais parece ter sentido”. Franz explica este estado pelo fato de uma grande parte da energia psíquica haver fuído para o inconsciente, e por conseguinte não se encontrar mais à disposição do eu. A energia foi sugada por um complexo inconsciente. Enquanto ira e tristeza são reações à não-satisfação dos três instintos básicos, na acídia os instintos são reprimidos. Para Evágrio o perigo da acídia consiste precisamente em que ela se esconde àquele a quem acomete. Sem que o homem perceba, os instintos desordenados assumem as rédeas, por vezes até mascarados de virtudes. A esta observação de Evágrio corresponde o que Franz constata em muitas depressões endógenas, a saber, que “no fundo de toda paralisação e estagnação da personalidade existe como que um desejo qualquer particularmente intenso (poder, amor, impulso de expansão, agressões, etc.), mas que o homem depressivo, por variados motivos, não ousa trazer à tona”. Na acídia os três instintos básicos atacam o homem a partir do inconsciente, como impulsos reprimidos, e que por isso já não podem ser claramente reconhecidos. E é precisamente o fato de não se ver o adversário contra quem se combate que torna a acídia tão perigosa. Os monges aconselham a perseverança, porque então há de surgir uma nova vida, há de chegar a paz e alegria. Franz expressa isto, do ponto de vista psicológico, com estas palavras: “Quando por bastante tempo se reside neste estado, mais tarde quase sempre o complexo que havia sido ativado pela energia retirada retorna à esfera consciente: surge um intenso interesse pela vida, mas que agora quase sempre impele em uma direção diferente”.

VII. O DEMÔNIO DA VAIDADE
O pensamento da vaidade é um pensamento muito sutil, que com facilidade infiltra-se entre os virtuosos. Inspira-lhes o desejo de publicar suas lutas e de irem atrás da glória dos homens. Fá-los fantasiar que estão expulsando furiosos demônios, curando as mulheres, que multidões procuram tocar-lhes os mantos. Prediz-lhes que hão de tornar-se sacerdotes, e já fazem o povo vir bater à sua porta em busca de conselho. E se por acaso eles não quiserem, hão de ser levados à força. E fá-los criar esperanças vãs, e entrega-os às tentações pelo demônio do orgulho ou da tristeza, que lhes inspira pensamentos contrários às suas esperanças. Às vezes entrega-os também ao demônio da luxúria, eles que pouco antes ainda apareciam como um santo e como um sacerdote digno de veneração (P13).

A vaidade não se encontra no mesmo plano dos outros vícios. Ela é por Cassiano atribuída à parte racional da alma. A vaidade surge quando os outros vícios parecem já ter sido superados. Mas ela neutraliza o esforço para vencer os vícios. E o demônio da vaidade é particularmente esperto, ele sempre se infiltra quando os outros demônios já parecem haver sido vencidos. Evágrio compara a vaidade com uma bolsa de dinheiro furada. A gente coloca nela o salário de seus combates. Mas ela não guarda coisa nenhuma. Assima a vaidade neutraliza todos os esforços para alcançar a vitória. Faz com que o monge lute por uma motivação errada, não para se abrir para Deus mas sim para agradar aos homens. Mas com isto ele passa o orientar-se pelo exterior e perde a sinceridade de olhar para si próprio.

Mais de uma pessoa identificada com elevados ideais tem sucumbido à tentação da vaidade. Como o ideal conta com o apreço dos homens, através do esforço por alcançá-lo ele se compromete a aumentar o sentimento de seu próprio valor. Na vaidade o que ocupa o primeiro plano é, em última análise, o próprio eu. Trata-se de glorificar o eu, e não de entregar-se a Deus.

VIII. O DEMÔNIO DO ORGULHO
O demônio do orgulho leva a alma a uma profundíssima queda. Convence-a a não reconhecer a ajuda de Deus, mas a acreditar que a causa de suas boas ações é ela mesma, e a olhar os irmãos de cima para baixo, como pessoas ignorantes e sem compreensão. Depois do orgulho vem a ira e a tristeza, e mais tarde, como último mal, a confusão do espírito, a loucura, e visões de uma legião de demônios nos ares (P14).

O orgulho não é apenas o último, mas também o mais perigoso dos vícios. O orgulhoso considera-se a si mesmo como Deus, e em última análise ele renega sua condição de homem. Isto o retira da realidade para um mundo de aparências em que ele incha-se cada vez mais, terminando na confusão do espírito. O orgulho é aquilo que C.G. Jung chama de inflação. A pessoa incha-se com o que contém seu inconsciente, e com isto ela perde cada vez mais o sentido da realidade. Por último passa a considerar-se como um grande reformador, um profeta ou um santo. Nega suas próprias sombras e sem perceber é arrastada pelo inconsciente. Segundo Jung, isto leva à perda do equilíbrio da alma, à dissolução da personalidade. Por conseguinte é adequado falar-se do demônio quando nos referimos aos perigos do orgulho. Pois o orgulhoso, ao identificar-se com o arquétipo do inconsciente, entrega-se inteiramente ao seu poder, torna-se verdadeiramente um possesso. Por isso, precisamente no contexto do orgulho, os monges falam de confusão do espírito, ou mesmo de perda do espírito.

Os oito vícios e os demônios relacionados com eles ameaçam cada vez mais o homem. Enquanto os três impulsos básicos são relativamente fáceis de controlar, com os três estados de ânimo a luta é muito mais difícil. Do homem adulto espera-se que ele domine os três impulsos básicos de maneira a não prejudicarem sua personalidade como um todo. É claro que também existe aqui um mais e um menos. Como os instintos possuem uma função positiva, também não se trata de eliminá-los mas apenas de os ordenar e de os integrar. Mas quando passamos a ocupar-nos com os três estados de ânimo, trata-se de integrar as próprias sombras. Primeiramente torna-se necessário que admitamos as necessidades e os desejos, para que não tomem posse da alma como emoções negativas e escapem a todo e qualquer controle. Depois, precisamente na luta contra a tristeza e a falta de disposição é do inconsciente que se trata, sobretudo da integração da anima, da parte feminina da alma, que no sexo masculino, quando reprimida, se manifesta como mau humor. Esta luta, tanto segundo Jung como também segundo Evágrio, realiza-se na fase da meia-idade, e se demonstra como essencialmente mais difícil do que o domínio dos instintos. Na luta contra a vaidade e o orgulho trata-se da sinceridade para consigo mesmo e da relação com Deus. Na terminologia de Jung trata-se de saber se o Eu irá dar lugar ao Selbst, se o eu tentará assumir os conteúdos do inconsciente e com eles enriquecer-se, ou então se ele irá se abrir e se entegar ao numinoso que lhe vem ao encontro nos arquétipos do insconsciente, sobretudo no no arquétipo de Deus. Do ponto de vista religioso trata-se de saber se eu quero usar Deus e os homens para mim mesmo, para minha própria glória, ou se quero servir a Deus e aos homens, se estou pronto a renunciar aos meus ideais e a minhas imagens de Deus para entregar-me ao Deus verdadeiro, para render-me ao Seu amor.

(Convivendo com o mal - a luta contra os demônios no monaquismo antigo; de Anselm Grün)
 
[em: santual.com.br]

Do Culto Cristão Católico II, 1

Caros amigos, prosseguindo sobre questões da nossa Liturgia cristã Católica, abordaremos assuntos um tanto mais profundos. (Mas há quem diga que estes assuntos são detalhes, não dignos de atenção, ou exagero, preciosismo; pois o que importaria seria somente o amor ao próximo...)

"O culto litúrgico jamais pode ser despojado do seu caráter sagrado... por isso é errado substituir os objetos sagrados pelo de uso comum ou vulgar"  (Paulo VI)

1) De que devem ser feitas as alfaias (os paninhos) utilizadas na Celebração do Culto Católico?
2) As flores, qual seu significado?
3) Vasos decorativos, para quê e por quê?
4) O retábulo (parede de fundo do Templo), como deve ser?

Então, lá vamos nós!

"Tenham os Bispos todo o cuidado em retirar da casa de Deus e de outros lugares sagrados aquelas obras de arte que não se coadunam com a fé e os costumes e com a piedade cristã, ofendem o genuíno sentido religioso, quer pela depravação da forma, que pela insuficiência, mediocridade ou falsidade da expressão artística. " (SC 124)

Sobre a questão (1).

 "A Igreja preocupou-se com muita solicitude em que as alfaias sagradas contribuissem para a dignidade e beleza do culto, aceitando no decorrer do tempo, na matéria, na forma e na ornamentação, as mudanças que o progresso técnico foi introduzindo." (SC 122)

"... Por outro lado, a natureza e a beleza do lugar sagrado, bem como de todas as alfaias do culto, devem ser de tal modo que fomentem a piedade e exprimam a santidade dos mistérios que se celebram." (IGMR 294)

"Tal como para a construção das igrejas, também, no que se refere a todas as alfaias sagradas, a Igreja admite as formas de expressão artística próprias de cada região e aceita as adaptações que melhor se harmonizem com a mentalidade e as tradições dos diversos povos, contanto que correspondam adequadamente ao uso a que as mesmas alfaias sagradas se destinam.

Também neste sector se deve buscar com todo o empenho aquela nobre simplicidade que tão bem condiz com a arte verdadeira." (IGMR 325)


"Nas alfaias sagradas, além dos materiais tradicionalmente usados, podem utilizar-se outros que, de acordo com a mentalidade da nossa época, se consideram nobres, resistentes e adaptados ao uso sagrado..."(IGMR 326)

"... todas as outras alfaias destinadas ao uso litúrgico, ou a qualquer título admitidas na igreja, devem ser dignas e adequadas ao fim a que se destinam." (IGMR 348)

"Tenha-se grande cuidado em respeitar, mesmo nos objetos de menor importância, as exigências da arte, aliando sempre a limpeza a uma nobre simplicidade." (IGMR 351)

"Ao promoverem uma autêntica arte sacra, prefiram os Ordinários à mera sumptuosidade uma beleza que seja nobre. Aplique-se isto mesmo às vestes e ornamentos sagrados." (SC 124)


Será que nossas alfaias estão limpas e conservadas como deveriam ser? Será que estão sendo feitas de material nobre, digno, simples, mas que leva ao reconhecimento da nobreza do ato litúrgico?
E o manustérgio é de igual dignidade como pede a Santa Mãe Igreja para a celebração? Ou será que é apenas uma "toalhinha de bidê", daquelas que encontramos nos banheiros por aí?

Às vezes ouço alguns dizerem da necessidade da simplicidade na Celebração Eucarística, mas logo descubro que estes mesmos, quando se trata de suas casas, suas lidas, só tomam refrigerante de cola (não aceitam qualquer um); só usam camisas "de marca" e não qualquer uma; anel, só de diamante; aliança, só de ouro; só comem na pizzaria "x" porque só lá é a melhor; só usam carro "tal" porque só ele tem melhor motor; só usam smart ou black-berry porque são completos; tv só led de 42 polegadas, porque menores que essas  são ultrapassadas; só querem a Faculdade "tal" porque é a melhor;...

Daí, concluo: Engraçado. Para Deus, o simples; para si, somente o melhor satisfaz.
Paradoxo, não?

Cri por muito tempo que eram esses comentários "simplistas" de má intenção. Enganado estive por aquele tempo.
De fato, criticavam, opinavam sobre o que não sabiam de verdade.
Também eu fruto de uma geração da catequese às mínguas, feita mais por uso do esforço de "destemidos" catequistas - também frutos de outras catequeses obsequiosas -, padeci deste mal.

Diante de um rei, faríamos cochichados? Daríamos o pior? Falaríamos mais alto para encobrir a voz do rei?...
Ah, gente do interior!... Lembrei agora de nossos alagoanos do agreste e sertão... Quando se vai à casa deles, mesmo como simples visita, pegam no armário pratos que não costumam usar (só pra ocasiões especiais), fazem seu melhor prato, acolhem na melhor hospedagem e, enquanto na casa deles, é-se tratado dignamente... E quando vão à Igreja, estes mais simples alagoanos, não economizam em dízimo nem em decoração do "andor" de Nossa Senhora.

Simplicidade é mais que a estética. É a disposição de ser um simples ser humano, percebendo-se necessitado de Deus; e assim reconhecendo que Deus é Rei e Senhor, e a Ele o melhor, a glória, o louvor, o poder, a majestade, o bendizer e a Ação de Graças.

A Eucaristia é a Ação de Graças. Ao Senhor devemos nos despojar das limitações para oferecer-LHE o que de melhor temos. Não panos sujos, que nem em nossas casas usaríamos.

Tenhamos o trato com o Sagrado dispensando a ele o que é de melhor. Não cabe aqui aqueles chavões de simplicidade: "Deus quer só nossa simplicidade"... daí os templos à míngua sem dizimistas.
Simplicidade, repito, é reconhecer-se simples criatura necessitada de Deus, o Altíssimo, o Todo-Poderoso, o Senhor dos Exércitos, o Pai Bondoso.

"Diante do Altíssimo, o baixíssimo se rasteja" (D. Bernardo Alves)

Eudes Inacio, sJpVM.


domingo, 19 de fevereiro de 2012

Do Culto Cristão Católico

Caros amigos que me acompanham nesta jornada de blogueiro, gostaria de deter-me num ponto que me instiga e move ao comentário: o Culto.

A moção começa com questionamentos que deveriam ser de fácil explicação e aceitação, mas, infelizmente, não há muitos adeptos à concordância e à aceitação das respostas.

Por que nos ajoelhamos na Missa?
Por que nos ajoelhamos frente ao Altar?
Por que fazemos o Sinal da Cruz?

Bem, estas acima são perguntas que me fizeram jovens pertencentes a um grupo que queria saber mais sobre a Santa Missa e a Liturgia. Respondi a eles; e me pareceram satisfeitos com o que lhes expliquei - com ajuda de Luciano Peixoto.

A grande questão é:  Por que não temos aula de Liturgia junto às de Crisma? Não aceito a "resposta" de que não há tempo, porque odeio a ideia de que temos "pressa" para crismar jovens - se temos um caminho a ser percorrido, não devemos "encurtá-lo" para parecer "agradável". Quantidade de pessoas não deve ser, a meu ver, uma prerrogativa de boa catequese; antes parece-me frívola, vulgar.

Eudes Inacio, sJpVM.

Quando tiramos os olhos da Cruz, começamos o processo de idolatria.