segunda-feira, 28 de novembro de 2011

LEITURA ORANTE: MEDITAÇÃO CRISTÃ.

LECTIO DIVINA (LEITURA ORANTE).


Lectio Divina, Por Helber Clayton*
Muitos já ensinaram sobre a Lectio Divina, sua origem, seus passos, seus objetivos. Sobre o tema é fácil de encontrar na Internet, seja em português, seja em qualquer língua. Leia especialmente "Scala Claustralium (A Escada dos Monges)".

Mesmo assim, muitos ainda pedem explicações sobre essa antiquíssima prática. Tentarei então, em pausas, descrever aqui minha própria experiência na prática da Lectio.

Muitos traduzem "Lectio Divina" como "lição" ou "leitura de Deus", "leitura orante da Palavra". Eu a chamo de "leitura sob a inspiração do Espírito", uma vez que a Escritura é a própria voz do Espírito de Deus, e é do Espírito que deve brotar a nossa oração quotidiana (Cf. Rm 8, 26).

Devo chamar a atenção, como estudioso das Letras, que entendo a "leitura" não apenas como uma intelecção de textos escritos, mas como um processo, que começa na decifração dos códigos linguísticos, sejam eles escritos ou não, verbais ou não verbais, e termina na produção de outro texto que flui da mente e do coração através das nossas faculdades, seja da voz, da escrita ou qualquer outra forma de expressão.

A Lectio Divina é um processo. Como diria o monge Guigo, uma escada. Que leva, em quatro passos, da terra ao céu.

Fontes da Lectio Divina

Partimos da premissa monástica de que a oração nasce da leitura assídua e diligente das Escrituras (Orígenes). A Palavra de Deus é a fonte por excelência da Lectio Divina. Dessa forma, a Liturgia das Horas, por ser composta basicamente de textos extraídos da Sagrada Escritura, além de conter, entre outros elementos, hinos, antífonas e escritos, lapidados na tradição viva da Igreja, é opção privilegiada para o exercício da Lectio Divina.

Nesse processo comunicativo, nos colocamos, primeiramente como receptores, o Espírito Santo como emissor da mensagem, e o principal meio para nos transmiti-la é a Escritura Sagrada.

Mas a voz de Deus ressoa em toda parte:

"Os céus proclamam a glória do Senhor,
e o firmamento, a obra de suas mãos;
o dia ao dia transmite esta mensagem,
a noite à noite publica esta notícia.
Não são discursos nem frases ou palavras,
nem são vozes que possam ser ouvidas;
seu som ressoa e se espalha em toda a terra,
chega aos confins do universo a sua voz." (Sl 18, 2-5)

Podemos ouvi-lo nos murmúrios da natureza, nos acontecimentos diários, nas obras da arte humana, lê-lo na história, nas canções, na catequese da Igreja...

Para isso é necessário, antes de tudo, silêncio. Não apenas de ausência de palavras, mas de atenção e abandono, de renúncia de expectativas e (pré)conceitos, pois o Senhor irá falar. É a paz que ele vem anunciar (Sl 84, 9).

Lectio

Podemos dizer que a Lectio Divina começa, antes, com o esforço de Deus para comunicar-se conosco. É ele quem nos atrai, quem faz o nosso coração arder como aquela sarça no monte Horeb, faz com que nos aproximemos, e, do meio da sarça, nos chama pelo nome: "Moisés, Moisés!" (Cf. Ex 3, 1-6). E nosso primeiro movimento é dizer: "Eis-me aqui! (Ex 3, 4). Quando, enfim, escutamos a voz de Deus, aí começa para nós a Lectio Divina.

À leitura, eu escuto, é que diz o monge Guigo II, explicando o primeiro degrau de sua escada. E, ao prestar atenção, trazemos o conhecimento de Deus para o nosso conhecimento. Decodificamos a mensagem divina para a linguagem humana. Acrescentamos informação do céu ao nosso entendimento terreno.

Através da Lectio, a razão busca sentidos para a mensagem, as explicações para as figuras de linguagem, a localização no espaço e no tempo, o contexto histórico, a intencionalidade discursiva. Colhemos palavras, frases, sentidos, como colhemos flores num jardim.

A "leitura", porém, é apenas o primeiro degrau, a porta de entrada para os outros passos da Lectio Divina.

Meditatio

"Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração". (Lc 2,19)

Antes que Bruno, o Cartuxo, explicasse o sentido dos degraus, a Virgem já os praticava. Antes que os exegetas tentassem dar novo sentido ao logos e rhema de Platão, a mãe de Jesus já os demonstrava. Só conservando a Palavra e meditando-a no coração é possível trazer a Lei e os Profetas do seu contexto histórico para o atual; traduzir as metáforas para a linguagem corriqueira; transportar a teologia para a prática. É assim o Magnificat (Lc 1, 46-55): um canto baseado na escuta e meditação da Sagrada Escritura.

Na maioria das vezes, no entanto, nosso contato com Deus não passa do primeiro degrau, do mero entendimento. Temos uma enorme facilidade de esquecer as passagens da Escritura. Isto porque a mente tende a deletar aquilo que não damos serventia. Mesmo que sejam textos da Palavra de Deus.

Só escutar não basta. É preciso conservar a Palavra e meditá-la no coração.

Em vista disso, alguns escritores criaram uma espécie de sub-degrau para a Meditatio: a "Ruminatio" que é o trabalho de "conservar" a palavra na mente e no coração, através do retorno ao texto e até mesmo da memorização.

"Um Cristão deve meditar regularmente para não ser como os três primeiros terrenos da parábola do semeador". (CIC 2708).

Oratio

Chegamos ao momento da oração.

Como é isso? Só no terceiro degrau oramos de fato?

Mas é o movimento natural da vida!

Quando nascemos, qual a primeira coisa que fazemos antes de soltar o choro? Resposta: inspiramos o ar. Claro! antes de nascer, o oxigênio que nos chegava era através do sangue da mãe. Ao nascer inspiramos pela primeira vez. Ao inspirar, o ar chega aos pulmões, e, através dos pulmões, leva oxigênio a todos os órgãos do corpo.

E então, descobrimos a necessidade de algo que ainda não compreendemos. Por não compreender, choramos. É a única coisa que sabemos fazer. Descobrimos depois que aquela necessidade que nos levou ao choro era de conforto, carinho, alimento...

A Lectio Divina é como esse processo do nascimento.

A leitura é a inspiração. A meditação é quando o oxigênio é espalhado pelo corpo. A oração é o choro.

No Ofício das Leituras de sexta-feira após as cinzas lemos que:

"como uma criança que, chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos pela oração e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível."(Pseudo-Crisóstomo).

Porque não sabemos orar como convém, emitimos, após inspirar, gemidos inefáveis (Rm 8,26).

Esse gemidos são a expressão do coração que ouviu e mergulhou no mistério. E não importa o tipo, a forma ou a fórmula da expressão. O que importa agora é dizer a Deus...

Contemplatio

"Como uma criança que a mãe consola, sereis consolados em Jerusalém." (Is 66, 13)

Desde sempre entendi a"contemplatio" como "consolatio". Aqueles que choram pela oração são consolados na contemplação. Bem-aventurados estes (cf Mt 5,4).

A contemplação é a resposta à nossa oração. É a manifestação sensível da presença de Deus por meio do seu Espírito, que entra no cenário da nossa vida através da porta aberta pela oração. É obra daquele Paráclito prometido por Jesus, que haveria de ensinar toda a verdade (cf. Jo 16, 13), não da maneira racional, mas do suave consolo da fé.

Não devemos atribuir à palavra "contemplação" apenas o seu sentido mais usual que é de "olhar com atenção", mas o seu segundo sentido: "dar a; doar a; fazer mercê a". É Deus quem nos dá a sua graça, e nós somos "contemplados".

Penso que é esse o verdadeiro sentido que Guigo, o cartuxo, quis dar ao último degrau da sua escada, aquele que toca o céu, pois assim o descreve:

"E o Senhor, cujos olhos são fixos nos justos e cujos ouvidos estão não só atentos às suas preces (cf. Sl 34, 16), mas presentes nelas, não espera a prece acabar. Pois, interrompendo o curso da oração, apressa-se a vir à alma que o deseja, banhado de orvalho da doçura celeste, ungido dos perfumes melhores.

Ele recria a alma fatigada, nutre a que tem fome, sacia a sua aridez, lhe faz esquecer tudo o que é terrestre, vivifica-a, mortificando-a por um admirável esquecimento de si mesma, e embriagando-a, sóbria a torna." (Scala Claustralium VII)

Assim, pela contemplação somos impregnados por esse orvalho do céu, de modo a buscarmos, mais vivamente, andar conforme a vontade daquele que veio em nós habitar.

"Não cesso de agradecer a Deus por vós, pela graça divina que vos foi dada em Jesus Cristo. Nele fostes ricamente CONTEMPLADOS com todos os dons, com os da palavra e os da ciência, tão solidamente foi confirmado em vós o testemunho de Cristo." (I Cor 1, 4-6)

A Lectio Divina e a Vida

Em verdade a Lectio Divina é um processo que envolve toda a nossa vida, desde o momento que aderimos à fé, até o último dia de nossa caminhada.

Foi assim para os discípulos de Jesus.

Eles, atendendo ao chamado do mestre, passaram a ouvi-lo, a saber o sentido das parábolas, a ver os seus atos, seus exemplos de vida. Fizeram uma verdadeira "leitura de Cristo".

Também, a exemplo da Mãe, conservavam tudo que tinham visto e ouvido, meditando em seus corações (cf. Lc 2, 19). Tanto que mesmo depois de muitas décadas lembravam de detalhes das palavras e das obras do Mestre e os contaram em seus Evangelhos.

Seguindo a Cristo pelos montes onde costumava orar e, inflamados pelo seu exemplo, sentiram o ardente desejo de também aprenderem a rezar, e pediram ao Senhor: "ensina-nos!" (Lc 11,1). Unânimes na oração (At 1, 14), permaneceram no Cenáculo juntamente com Maria, mãe de Jesus, até o dia de Pentecostes.

Tendo chegado o momento aguardado, subiram ao degrau da contemplação ao serem revestidos com os dons do Espírito Santo. Então compreenderam, pelo dom da fé, os sentidos da paixão e ressurreição do Senhor e a razão verdadeira do chamado: o anúncio do Evangelho a todos os povos. E, vivendo a vida de Cristo, sofrendo os mesmos ultrajes, açoites e martírios, foram dignos de serem chamados "Cristãos", desde Antioquia (At 11,26) até os dias de hoje.

Se do Senhor as palavras ouvirmos, se delas extrairmos o significado para nossa vida, se juntos com ele subirmos ao monte da oração, se sua vida tornar-se impregnada em nós a ponto de sermos "cristãos" de fato, não apenas em momentos determinados, mas em todo o tempo, então podemos dizer que somos discípulos de Jesus, e fazemos da nossa vida uma viva e verdadeira Lectio Divina.

LECTIO DIVINA (LEITURA ORANTE).


LECTIO DIVINA: SCALA CLAUSTRALIUM, de Guigo II[1]

Tradução de D. Timóteo A. Anastásio, O.S.B, antigo Abade do Mosteiro de São Bento. Bahia (BRASIL).
Cf. o livro: “Lectio divina,ontem e hoje” - Edições Subiaco.

CARTA DE DOM GUlGO, CARTUXO, AO IR. GERVÁSIO, SOBRE A VIDA CONTEMPLATIVA

I

Ao seu dileto irmão Gervásio, o Ir. Guigo: o Senhor seja o seu deleite.
Amar-te, irmão, é para mim uma dívida, pois foste tu que, primeiro, começaste a me amar. E sou obrigado a te responder, porque, anterior, tua carta me convida a escrever-te.
Proponho-me, assim, a te transmitir certas coisas que pensei sobre o exercício espiritual dos monges, a fim de que possas julgar e corrigir meus pensamentos a propósito de um assunto que tu melhor conheces por experiência, do que eu pela reflexão.
É justo que eu te ofereça, em primeira mão, as primícias do meu trabalho. Pois convém que colhas os primeiros frutos da recente plantação que, em louvável furto, subtraíste à servidão do Faraó e à mole servidão, e colocaste no exército em ordem de batalha, enxertando sabiamente na oliveira o ramo habilmente cortado da oliveira selvagem (cf. 81144,2; Ex 13,14; Ct 6,3.9 e Rm 11,17.24).

II

OS QUATRO DEGRAUS

Um dia, ocupado no trabalho manual, comecei a pensar no exercício espiritual do homem. E eis que, de repente, enquanto refletia, se apresentaram a meu espírito quatro degraus espirituais: a leitura, a meditação, a oração, a contemplação.
Esta é a escada dos monges, que os eleva da terra ao céu. Embora dividida em poucos degraus, ela é de imenso e incrível comprimento, com a ponta inferior apoiada na terra, enquanto a superior penetra as nuvens e perscruta os segredos do céu (cf. Gn 28,12).
Estes degraus, assim como são diversos em nome e em número, também se distinguem pela ordem e o valor.
Se alguém examina diligentemente suas propriedades e funções, o que produz cada um deles para nós, e como diferem e se hierarquizam entre si, achará pequeno e fácil por sua utilidade e doçura todo o trabalho e esforço que lhes dedicar.
A leitura é o estudo assíduo das Escrituras, feito com aplicação do espírito.
A meditação é uma ação deliberada da mente, a investigar com a ajuda da própria razão o conhecimento duma verdade oculta.
A oração é uma religiosa aplicação do coração a Deus, para afastar os males ou obter o bem. A contemplação é uma certa elevação da alma em Deus, suspensa acima dela mesma, e degustando as alegrias da eterna doçura.
Notada, assim, a descrição dos quatro degraus, resta-nos ver a função de cada um em relação a nós.

III

QUAL A FUNÇÃO DE CADA UM DOS CITADOS DEGRAUS

A leitura procura a doçura da vida bem-aventurada, a meditação a encontra, a oração a pede, a contemplação a experimenta.
A leitura, de certo .modo, leva à boca o alimento sólido, a meditação o mastiga e tritura, a oração consegue o sabor, a contemplação é a própria doçura que regala e refaz.
A leitura está na casca, a meditação na substância, a oração na petição do desejo, a contemplação no gozo da doçura obtida. Para que se possa ver isto de modo mais expressivo, suponhamos um exemplo entre muitos.

IV

A FUNÇÃO DA LEITURA

À leitura, eu escuto: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8).
Eis uma palavra curta, mas cheia de suaves sentidos para o repasto da alma. Ela oferece como que um cacho de uva. A alma, depois de o examinar com cuidado, diz em si mesma: "Pode haver aqui algum bem, voltarei ao meu coração e tentarei, se possível, entender e encontrar esta pureza. Pois é preciosa e desejável tal coisa, cujos possuidores são ditos bem-aventurados, e à qual se promete a visão de Deus, que é a vida eterna, e que é louvada por tantos testemunhos da Sagrada Escritura" .
Desejosa de explicar mais plenamente a si mesma esta coisa, começa a mastigar e a triturar essa uva, e a põe no lagar, enquanto excita a razão a procurar o que é e como pode ser adquirida tão preciosa pureza.

V

A FUNÇÃO DA MEDITAÇÃO

Começa, então, diligente meditação. Ela não se detém no exterior, não pára na superfície, apóia o pé mais profundamente, penetra no interior, perscruta cada aspecto.
Considera, atenta, que não se disse: Bem-aventurados os puros de corpo, mas, sim, "os puros de coração". Pois não basta ter as mãos inocentes de más obras, se não estivermos, no espírito, purificados de pensamentos depravados. Isto o profeta confirma por sua autoridade, ao dizer: Quem subirá o monte do Senhor? Ou quem estará de pé no seu santuário? Aquele que for inocente nas mãos e de coração puro (Sl 24,3-4).
Depois ela considera quanto o próprio profeta deseja essa pureza, ao orar: Cria em mim, Ó Deus, um coração puro (Sl 51,12) e ainda: Se olhei a iniqüidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá (Sl 66,18).
A meditação pensa em como era o bem-aventurado Jó solícito por essa guarda, pois dizia: Fiz um pacto com os meus olhos para não pensar em nenhuma virgem (Jó 31,1). Eis como se dominava o santo homem . que fechava seus olhos para não ver o que é vão, evitando olhar imprudentemente o que depois desejaria contra a sua vontade.
Depois de ter refletido sobre esses pontos e outros semelhantes no que toca à pureza do coração, a meditação começa a pensar no prêmio:
Como seria glorioso e deleitável ver a face desejada do Senhor, mais bela do que a de todos os homens (Sl 45,3), não mais abjeta e vil (cf. Is 53,2), não mais tendo a aparência com que o revestiu sua mãe, mas envergando a estola da imortalidade, e coroado com o diadema que seu Pai lhe deu no dia da ressurreição e da glória, o dia que o Senhor fez (Sl 118,24).
Ela concebe que nesta visão haverá aquela saciedade esperada pelo profeta, ao dizer: Serei saciado quando aparecer a tua glória (Sl 17,15).
Vês quanto licor emanou daquela pequena uva, quanto fogo nasceu duma centelha, quanto se alargou na bigorna da meditação, este pequeno pedaço de metal: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!
Mas, quanto mais poderia alargar-se, se alguém experiente viesse ajudar!
Sinto como "é fundo o poço", mas não passo ainda de um noviço rude, que mal cheguei a tirar poucas gotas.
Inflamada por esses fachos, incitada por tais desejos, a alma começa a pressentir, quebrado o alabastro, a suavidade do ungüento. Não é ainda o gosto, mas é já o cheiro.
Por esse, a alma compreende quão suave seria experimentar essa pureza, cuja meditação a faz saber quanta alegria ela dá. Mas que fará ela?
Ardendo ao desejo de possuí-Ia, não encontra em si como a pode ter.
E quanto mais a procura, mais tem sede.
Enquanto se dá à meditação, sua dor aumenta, porque ainda não sente a doçura que a meditação mostra existir na pureza de coração, mas sem a dar.
Porque não cabe a quem lê nem a quem medita sentir tal doçura, se não recebe do alto (10 19,11) esse dom. Ler e meditar é comum tanto aos bons quanto aos maus, e os próprios filósofos pagãos encontraram, pelo exercício da razão, em que consiste, em suma, o verdadeiro bem.
Mas, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus (Rm 1,21) e, presumindo de suas forças, diziam: Venceremos graças à nossa língua, nossos lábios são nossos (Sl 12,5). Assim, não mereceram receber o que tinham podido ver. Perderam-se em seus pensamentos (Rm 1,21), e a sua sabedoria foi devorada (Sl 107,27)
A sabedoria deles tinha as suas fontes no estudo das ciências humanas, e não no Espírito de sabedoria que é o único a dar a verdadeira sabedoria, isto é, a ciência saborosa que alegra e nutre, com inestimável sabor, a alma que a possui. É dela que foi escrito: A sabedoria não entrará na alma perversa (Sb 1,4).
Esta procede só de Deus. E como o Senhor deu a muitos a missão de batizar, mas guardou só para si o poder e a autoridade de perdoar os pecados pelo batismo, o que levou João a dizer, por antonomásia e de modo preciso: É ele que batiza, assim também podemos dizer: É ele que dá sabor à sabedoria, e faz saborosa a ciência da alma.
A palavra é dada a todos; a sabedoria do espírito, que o Senhor distribui a quem quer e quando quer (cf. 1 Cor 12,11), a poucos é dada.

VI

A FUNÇÃO DA ORAÇÃO

Vendo, pois, a alma que não pode por si mesma atingir a desejada doçura de conhecimento e da experiência, e que quanto mais se aproxima do fundo do coração (Sl 64,7), tanto mais distante é Deus (cf. Sl 64,8), ela se humilha e se refugia na oração. E diz: Senhor, que não és contemplado senão pelos corações puros, eu procuro, pela leitura e pela meditação, qual é, e como pode ser adquirida a verdadeira doçura do coração, a fim de por ela conhecer-te, ao menos um pouco.
Eu buscava, Senhor, a tua face, a tua face Senhor, eu buscava (cf. Sl 27,8); meditei muito tempo em meu coração, e na minha meditação cresceu um fogo (cf. Sl 39,4) e o desejo de te conhecer ainda mais.
Quando me repartes o pão da Sagrada Escritura, na fração do pão te tomas. conhecido por mim (cf. Lc 24,35). E quanto mais te conheço, tanto mais desejo conhecer-te, não já na casca da leitura, mas no sabor da experiência.
Isto não peço, Senhor, por meus méritos, mas pela tua misericórdia.
Confesso-me indigna pecadora, mas até os cãezinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos (Mt 15,27).
Dá-me, pois, Senhor, o penhor da herança futura, uma gota ao menos da chuva celeste, para arrefecer a minha sede, pois ardo de amor (cf. Ct 2,5).

VII

EFEITOS DA CONTEMPLAÇÃO

Com essas e outras palavras, a alma inflama o seu desejo, mostra assim o que nela se fez, por encantações invoca o seu Esposo.
E o Senhor, cujos olhos são fixos nos justos e cujos ouvidos estão não só atentos às suas preces (cf. Sl 34, 16), mas presentes nelas, não espera a prece acabar. Pois, interrompendo o curso da oração, apressa-se a vir à alma que o deseja, banhado de orvalho da doçura celeste, ungido dos perfumes melhores.
Ele recria a alma fatigada, nutre a que tem fome, sacia a sua aridez, lhe faz esquecer tudo o que é terrestre, vivifica-a, mortificando-a por um admirável esquecimento de si mesma, e embriagando-a, sóbria a torna.
Como em certas funções carnais a alma se deixa a tal ponto vencer pela concupiscência, que perde o próprio uso da razão e o homem se toma todo carnal, assim, ao contrário, nessa contemplação superior, os movimentos carnais são de tal modo vencidos e absorvidos pela alma, que a carne não contradiz em nada ao espírito, e o homem se torna quase todo espiritual.

VIII

SINAIS DA VINDA DA GRAÇA

Mas, Senhor, como descobrir quando realizas tudo isso, e qual é o sinal da tua vinda?
São, por acaso, os suspiros e as lágrimas os mensageiros e testemunhas da consolação e da alegria? Se assim é, estamos em presença duma nova antinomia e de uma significação inusitada.
Qual é, com efeito, a relação entre consolação e suspiros, alegria e lágrimas? Se é que se podem chamar lágrimas estas lágrimas, e não antes, abundância transbordante do orvalho interior derramado do céu, indício da purificação interior, limpeza do homem exterior.
No batismo de crianças, a purificação do homem interior é figurada e significada pela ablução exterior. Aqui, ao contrário, a purificação exterior procede da ablução interior.
Ó felizes lágrimas, pelas quais são lavadas as manchas interiores, e as labaredas do pecado se apagam! Bem-aventurados os que assim chorais, porque rireis (cf. Mt 5,5).
Nessas lágrimas reconhece, ó alma, o teu Esposo, abraça o Desejado, embriaga-te em torrente de delícias, suga do seio da consolação o leite e o mel. Estes são os maravilhosos presentinhos e consolos que teu Esposo te distribui e concede, isto é, tuas lágrimas e suspiros.
Ele te trouxe nessas lágrimas a poção sob medida, o pão de dia e de noite, aquele pão que confirma o coração do homem e é mais doce do que o favo de mel.
Ó Senhor Jesus, se são tão doces essas lágrimas que brotam da tua lembrança e do teu desejo, quão doce haverá de ser o gozo experimentado em tua visão manifesta!
Se é tão doce chorar por ti, quanto mais doce será gozar de ti?
Mas, por que exprimimos de público tais secretos colóquios? Por que me esforço por revelar em termos comuns essas inefáveis ternuras? Os que não as experimentaram, não as compreenderão. Eles as leriam mais claramente no livro da experiência, onde a unção divina ensina por si mesma (cf. l Jo 2,27).
De qualquer modo, porém, a letra exterior não aproveita ao leitor, pois a leitura da letra exterior é de pouco sabor, a não ser que uma explicação tire do coração o sentido interior.

IX

A GRAÇA SE ESCONDE

Ó minha alma, prolonguei por muito tempo este discurso. Pois era bom para nós estar ali, e contemplar com Pedro e João a glória do Esposo, e ficar largo tempo com ele, se ele quisesse fazer ali não duas, nem três tendas (cf. Mt 17,4), mas uma só em que estaríamos juntos, e juntos nos deleitássemos.
Mas eis que já diz o Esposo, Deixa-me partir, pois já sobe a aurora (Gn 32,26), já recebeste a luz da graça e a visita que desejavas.
Dada, pois, a bênção e mortificado o nervo da coxa, e mudado o nome de Jacó para Israel (cf. Gn 32,25-32), o Esposo longamente desejado se retira por um pouco de tempo, depressa escapa.
Ele se arreda, tanto em relação à visita de que falei, quanto à doçura da contemplação. Mas permanece sempre presente, quanto à direção, à graça, à união.

X

COMO A OCULTAÇÃO DA GRAÇA COOPERA PARA O NOSSO BEM

Mas não temas, esposa, não desespere, não penses que és desprezada, se o Esposo te oculta por algum tempo a sua face. Tudo isso concorre ao teu bem (cf. Rm 8,28), e ganhas com a partida e com a vinda.
Ele veio para ti, e é também para ti que ele se afasta. Vem para a consolação, afasta-se por cautela, a fim de que a grandeza da consolação não te ensoberbeça, evitando que a presença contínua do Esposo, te leve a desprezar as companheiras e atribuas a consolação não à graça, mas à natureza.
Esta graça, o Esposo a concede quando quer e a quem ele quer, e não se possui como direito hereditário. É conhecido o provérbio que diz que a familiaridade excessiva gera o desprezo. Ele se afasta, pois, para não ser desprezado, se é demais assíduo, e para que, ausente, seja mais desejado, e desejado seja procurado com maior ardor, e longamente querido, seja, enfim, achado com maior alegria.
Além disso, se nunca faltasse essa consolação, que em relação à futura glória a revelar-se em nós (cf. Rm 8,18), é enigmática e parcial, talvez julgássemos que temos aqui cidadania permanente e procuraríamos menos a futura.
Assim, para não tomarmos o exílio por pátria, o penhor pelo pleno valor, é que o Esposo vem de tempo em tempo, ora trazendo consolação, ora a substituindo pelo leito de doente (cf. 8141,4).
Ele permite que saboreemos por um pouco de tempo a sua doçura, mas antes que ela seja plenamente sentida, ele se esvai. Assim, voejando sobre nós de asas abertas, ele nos provoca a voar (cf. Dt 32,11), como se dissesse: Experimentastes um pouco da minha suavidade e doçura, mas, se quereis saciar-vos plenamente, correi atrás de mim ao odor dos meus perfumes (cf. Ct 1,3), levantai os corações para o alto onde estou à direita do Pai. Aí me vereis, não mais em figura e em enigma, mas face a face, e então, o vosso coração gozará plenamente, e o vosso gozo ninguém vos tirará (Jo 16,22).

XI

COM QUE CUIDADO A ALMA SE DEVE COMPORTAR DEPOIS DA VISITA DA GRAÇA

Mas, acautela-te, ó esposa. Quando o Esposo se ausenta, não vai para longe. Se não o vês, ele sempre te vê. Ele é cheio de olhos à frente e atrás (cf. Ez 1,18). Jamais podes fugir da sua vista. Tem junto de ti seus enviados, espíritos que são como que mensageiros muito sagazes, que vejam como te conduzes na ausência do Esposo, e te acusem diante dele se descobrirem em ti algum sinal de impureza e de leviandade.
Este Esposo é cheio de zelo. Se, acaso, acolheres um outro amante, ou te empenhas em agradar mais a um outro, ele logo se afasta de ti e se une a outras virgens fiéis.
É delicado esse Esposo, é nobre, é o mais belo dos filhos dos homens (Sl 45,3), e assim, não quer ter uma esposa senão perfeitamente bela. Se ele vir em ti uma mancha, ou uma ruga, logo desvia o seu olhar.
Ele não suporta nenhuma impureza. Sê, pois, casta, sê reservada e humilde, para merecer a visita freqüente do teu Esposo.
Temo que este discurso se tenha prolongado demais, mas a matéria abundante me obrigou a isto, assim como a sua doçura. Não prolonguei por minha espontânea vontade, foi o seu encanto que me arrastou sem sentir.

XII

RECAPITULAÇÃO DO QUE FOI DITO

Para que se possa ver melhor em conjunto o que foi dito em forma mais desenvolvida, vamos recapitulá-lo em resumo.
Assim como foi notado nos exemplos propostos, podes ver como os ditos degraus se ligam uns aos outros entre si. E como um precede a outro, tanto no tempo, como na casualidade.

Qual primeiro fundamento, vem a leitura. Ela fornece a matéria e nos leva à meditação.

A meditação, por sua vez, perscruta com maior diligência o que se deve desejar, e como que cavando, acha e mostra o tesouro. Mas, como não pode por si mesma obtê-lo, leva-nos à oração.

A oração, elevando-se a Deus com todas as suas forças, obtém o tesouro desejável, a suavidade da contemplação.

Sobrevindo a contemplação, ela recompensa o trabalho dos três degraus referidos, embriagando. a alma sedenta com o orvalho da doçura celeste.

A leitura é feita segundo um exercício mais exterior; a meditação, segundo uma inteligência mais interior; a oração, segundo o desejo; a contemplação passa acima de todo sentido.
O primeiro degrau é dos principiantes; o segundo, dos que progridem; o terceiro, dos fervorosos; o quarto, dos bem-aventurados.

XIII

COMO OS MESMOS DEGRAUS SÃO LIGADOS UNS AOS OUTROS

Estes degraus são de tal modo ligados, e de tal forma servem uns aos outros, que os precedentes pouco ou nada aproveitam sem os seguintes, e os seguintes, por sua vez, nunca ou só raramente, podem ser adquiridos sem os precedentes.
Que adianta, com efeito, ocupar o tempo em contínua leitura, percorrer os feitos e os escritos dos santos, se não exprememos o seu suco, mastigando e ruminando, e não o passamos até ao mais íntimo do coração, engolindo, a fim de por eles considerarmos diligentemente o nosso estado, e cuidarmos de praticar as obras daqueles cujos feitos queremos ler freqüentemente?
Mas, como haveremos de cogitar estas coisas, ou como poderemos evitar que, meditando coisas erradas e vãs, se transgridam os limites constituídos pelos santos Pais, a não ser que sejamos antes instruídos a tal respeito pela leitura ou pelo ensino?
O ensino, de certo modo, se relaciona com a leitura, o que nos leva habitualmente a dizer que lemos para nós mesmos ou para os outros, mas também o que ouvimos dos mestres.
Igualmente, que vale ao homem ver pela meditação o que deve praticar, se não pode fazê-lo senão pelo auxilio da oração e pela graça de Deus? Porque todo dom excelente e todo dom perfeito vem de cima e desce do Pai das luzes (Tg 1,17).
Sem ele nada podemos, ao passo que ele faz em nós as obras, mas não sem nós. Pois somos cooperadores de Deus (1Cor 3,9), como diz o Apóstolo. Deus quer que lhe supliquemos, quer que abramos à graça que vem e bate à porta, o seio da nossa vontade, e lhe demos o nosso consentimento.
O Senhor exigia esse consentimento da Samaritana, quando dizia:
Chama o teu marido (Jo 4,16), como se dissesse: Quero te infundir a graça; aplica o teu livre arbítrio.
Dela exigia a oração: Se soubesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, serias tu que lhe terias pedido a água viva (ib.1 O).
Inflamada, pois, pelo desejo, volta-se para a oração, dizendo:
Senhor, dá-me desta água, a fim de que eu não tenha mais sede. Assim, portanto, a palavra do Senhor que ouvira e depois meditara, a incitou à oração.
Como haveria de tomar-se solícita na súplica, se antes, a meditação não a tivesse feito arder? Ou de que lhe serviria a precedente meditação, se a oração seguinte não obtivesse o que aquela lhe mostrara?
Para que seja, pois, frutuosa a meditação, é preciso que se lhe siga o fervor da oração, da qual é como um efeito a doçura da contemplação.

XIV

CONSEQÜÊNCIAS DO QUE FOI DITO

De tudo isso podemos concluir que a leitura sem a meditação é árida, a meditação sem a leitura é errônea, a oração sem meditação é morna, a meditação sem oração é infrutífera.
A oração com fervor obtém a contemplação, mas a aquisição da contemplação é rara ou miraculosa sem a oração.
Deus, com efeito, cujo poder não tem limites, e cuja misericórdia se estende a todas as suas obras, às vezes suscita das pedras filhos de Abraão (cf. Mt 3,9). É o que se dá quando força corações duros e rebeldes a querer. Ele é como o pródigo que, segundo se costuma dizer, "dá o boi com os chifres", quando vem sem ser chamado e se envolve
sem ser procurado.
Embora tenha isso acontecido a alguns, como a Paulo e alguns outros, não devemos, no entanto, tentar a Deus presumindo tais dons, mas fazer o que nos compete, isto é, ler e meditar a lei de Deus, e rogar-lhe que ajude a nossa fraqueza, e veja a nossa imperfeição. Ele próprio nos ensina a fazer assim, quando diz: Pedi e recebereis, procurai e achareis, batei e abrir-se-vos-á (Mt 7,7). Pois agora o reino dos céus sofre violência, e são os violentos que dele se apoderam (Mt 11,12).
Eis, pois, que as distinções acima assinaladas permitem perceber as propriedades dos vários degraus, como se concatenam entre si, o que produz em nós cada um deles. .
Feliz o homem que, tendo o espírito vazio de outros cuidados, deseja sempre passar e repassar por esses degraus. É aquele que, vendendo tudo que possui, compra o campo em que está escondido o tesouro desejável, que é recolher-se e ver como é suave o Senhor (cf. Sl 34,9).
Feliz, sim, aquele que, exercitado no primeiro degrau, bem atento no segundo, fervente no terceiro, alçado acima de si no quarto, se eleva cada vez mais forte, por essas subidas, até ver o Deus dos deuses em Sião (Sl 84,8).
Bem-aventurado é aquele, a quem é dado permanecer, ainda que por pouco tempo, nesse último degrau, e que pode dizer: Eis que sinto a graça de Deus, eis que contemplo com Pedro e João a sua glória no monte, eis que gozo com Jacó os abraços da bela Raquel.
Mas acautele-se ele depois de tal contemplação, para não cair nos abismos por uma queda desordenada, nem voltar, depois de tão grande visita, aos lascivos atos do mundo e às seduções da carne.
Como não pode a fraca ponta da mente humana sustentar mais longamente o esplendor da verdadeira luz, desça suavemente e com ordem algum dos três degraus pelos quais subira, e assim, alternadamente, ora em um ora em outro, demore segundo a moção do livre arbítrio e as circunstâncias de lugar e de tempo. A meu ver, ele estará tanto mais
próximo de Deus, quanto mais longe do primeiro degrau. Como é, infelizmente, frágil e miserável a condição humana!
Vemos, pois, abertamente, com o auxílio da razão e os testemunhos das Escrituras, que a perfeição da vida bem-:-aventurada está contida nestes quatros degraus, e que o homem espiritual deve estar sempre a exercitar-se neles.
Mas, quem é que guarda esse modo de viver, quem é ele, e nós o louvaremos? (Eclo 31,9). Querer, muitos querem, mas fazer é de poucos.
Queira Deus que sejamos desses poucos.

XV

QUATRO CAUSAS QUE NOS RETRAEM DOS REFERIDOS DEGRAUS

São quatro as causas que, o mais das vezes, nos desviam desses degraus: uma necessidade inevitável, a utilidade duma boa ação, a fraqueza humana, a vaidade mundana.
A primeira é desculpável; a segunda é tolerável; a terceira é miserável; a quarta é culpável. E verdadeiramente culpável. A quem, por essa causa, é desviado do seu propósito, melhor seria não ter conhecido a graça de Deus, do que retroceder depois de conhecê-la. Que escusa terá do seu pecado?
Não lhe poderá, acaso, Deus dizer, com razão: Que mais te devia fazer e não fiz? (cf. Is 5,4). Não existias e te criei. Tornaste-te servo do diabo e do pecado, e te redimi. Corrias com os ímpios ao redor do mundo, e te escolhi. Dei-te graça perante meus olhos e queria fazer em ti a minha habitação, e em verdade me desprezaste. Não jogaste para trás somente as minhas palavras, mas a mim mesmo, e andaste em busca das tuas concupiscências.
Mas, ó Deus bom, suave e manso, doce amigo, conselheiro prudente, ajuda forte, como é desumano e temerário aquele que te rejeita, e repele do seu coração um hóspede tão humilde e clemente!
Ó infeliz e nociva troca, rejeitar o seu Criador e acolher pensamentos maus e prejudiciais, e entregar tão depressa a pensamentos impuros e ao espezinhar dos porcos até mesmo aquela câmara secreta do Espírito Santo, que é o fundo do coração, que pouco antes se dirigia às alegrias celestes!
Ainda estão quentes no coração os vestígios do Esposo, e já ali se intrometem desejos adulterinos.
É inconveniente e indecoroso para ouvidos que acabam de ouvir palavras que não é lícito ao homem falar (cf. 2Cor 12,4), entregar-se tão depressa a fábulas e a ouvir maledicências. E para olhos que acabam de ser batizados pelas lágrimas sagradas, de repente se voltar para ver vaidades. Para a língua que acaba de cantar um doce epitalâmio, e que tinha reconciliado o Esposo com a esposa por suas palavras inflamadas e persuasivas, e a introduzira no celeiro (cf. Ct 2,4), de novo se converter às conversas torpes, às leviandades, à urdi dura de dolos, à maledicência.
Não nos aconteça, Senhor, mas se acaso, por fraqueza humana, recairmos nisso, não desesperemos, mas de novo recorramos ao Médico clemente que levanta do pó o indigente e ergue o pobre do monturo (Sl 113,7). E ele, que não quer a morte do pecador, voltará a nos curar e salvar.
Já é tempo de pôr fim a esta carta. Oremos todos ao Senhor que no presente enfraqueça para nós os impedimentos que nos retraem da sua contemplação; no futuro, nos liberte inteiramente deles, levando-nos, mediante os referidos degraus, cada vez mais fortes, a vermos o Deus dos deuses em Sião (Sl 84,8). Ali, os eleitos não experimentarão mais gota a gota nem intermitentemente a doçura da contemplação. Pois terão, em incessante torrente de gozo, a alegria que ninguém tirará, e a paz imutável, a paz nele.
E tu, Gervásio, meu irmão, se do alto, te for dado um dia ascender ao cume desses degraus, lembra-te de mim e ora por mim, quando for bem para ti.
Assim, o véu puxe o véu (cf. Ex 26,33), e aquele que escuta, diga:
Vem! (Ap 22,17).________________________________________
[1] Guigo II foi o nono sucessor de São Bruno como prior do deserto da Grande Charteuse, de 1174 até 1180. Faleceu em 1188.

Lectio Divina (leitura orante): aprofundando os alicerces.


Lectio Divina.
“Diálogo Com Deus”, D. Colombás, Paulus.
Lectio Divina (passos).
Partes:
Ascética (1. Leitura + 2.Meditação) = perseverança.
Mística (3. Oração + 4. Contemplação) = abandono.
1. Lectio : ler = alimento sólido (recolhimento, leitura e escuta). Leitura dócil e serena da revelação de Deus pelo homem.

2. Meditatio / Ruminatio : “ruminar” (Mt 4,4 = alimento espiritual) a passagem escolhida, saboreando-a repetidamente, refletir (silêncio meditativo). Meditar é o recolhimento orante sobre a leitura com o auxílio do Espírito Santo no caminho do amor: “o amor é a força que une” (inteligência e conhecimento são subsidiários), comunhão e amizade com Deus (pensar muito mantém a distância).

3. Oratio : saborear, responder a Deus (oração do coração) – graças, louvor, petição, intercessão, reparação, promessa,etc.

4. Contemplatio : descanso, sabor e encantamento, revelação (oração do coração). A contemplação é uma forma superior de conhecimento caracterizada pela simplicidade do ato. A razão fica de lado com suas análises, sínteses, divisões e comparações. O coração tem a intuição da verdade e suscita uma elevação de pensamentos e sentimentos que bloqueiam a razão (ex: espanto, admiração, reconhecimento, louvor, arrependimento, etc.).
Contemplação = conhecimento mais elevado + fruição de incomparável beatitude OU
Contemplação = conhecimento dramático + sofrimento inaudito (a depender da verdade contemplada).
A contemplação só se expressa através do silêncio do recolhimento, preenchido pela Presença de Deus.
Contemplação com êxtase: elevação da alma além de si, permanecendo como que suspensa em Deus e degustando as alegrias da doçura eterna.

5. a) Operatio : agir em conformidade (ação). Vontade de viver a vontade de Deus (Lc 1, 38), encarnação da verdade para vivê-la.

b) Collatio : confrontar (comparar), contribuir, partilhar. “Comunicação fraterna de experiência de oração, de conhecimento de Cristo, de sugestões para a prática das virtudes, especialmente da caridade, que os irmãos receberam durante o silêncio da escuta e a oração do coração.” Expor o que o texto sagrado (lido e saboreado) havia sugerido e comparar experiências pessoais com outros para amoldar a vida à Palavra de Deus.

c) Eructatio (=expressar, transbordar): mel que flui espontaneamente dos lábios, das mãos e do coração. Agir e transbordar sob essa inspiração.

Objeto da Lectio Divina:

1º. Escrituras Sagradas.
2º Estudos dos Padres do Ocidente e do Oriente, liturgias.

Inimigos da Lectio Divina:

1. Mentalidade utilitarista e imediatista.
2. Excesso de literatura.
3. Insistência moderna do processo intelectual em detrimento do aspecto intuitivo e afetivo.
4. Hábitos de leitura rápida (modelo universitário de leitura).
5. Paixão por imprensa (jornais, revistas, televisão,etc.): causa paixões, preocupações, temores, etc.
6. Ritmo acelerado de vida.

Soluções:

1. Otium claustral: tempo livre (ócio) para se dedicar ao Espírito.
2. Repouso espiritual: “dias de deserto”.
3. Buscar clima de recolhimento, paz, oração: renunciar ao nervosismo e aos hábitos impostos por sociedade de consumo.

Lectio Divina é a leitura da Sagrada Escritura para suscitar a oração e conduzir à contemplação (via intuição contemplativa = “busca da verdade e viva experiência de sua posse”); “leitura-escuta” com simplicidade de coração e desejo de escutar (descoberta pela oração e não por discussões).

Obs: em casa onde há Lectio Divina, há paz, harmonia, respeito, amor e vida (Deus está presente).

Dom das lágrimas: a Lectio Divina inquieta a alma (“náusea e vômito”) e leva ao arrependimento do mal, purificação da alma para “vestir a veste branca”. Lágrimas de alegria, gratidão, louvor ao toque das carícias de Deus.

Modelo de Lectio Divina: a Bem-Aventurada Virgem Maria (Anunciação) = docilidade, disponibilidade, aceitação, humildade, serviço, escuta com atenção, meditar sem cessar as verdades reveladas, respeito e acolhimento.

Para ser receptivo, antes, é preciso crer (ter fé é o princípio da felicidade da Virgem Maria).

Fé = revelação da Verdade + adesão incondicional a Deus.

Postura da BVM: meditar sem cessar as verdades reveladas.

Revelação (leitura) – meditação – oração – contemplação (oração+contemplação=crescer na fé para a fidelidade).

Etapas essenciais da fé da BMV.

1. Viver de fé: viver segundo Deus, não segundo o ambiente (não se adéqua ao ambiente quando este contraria a Verdade).
2. Progredir na fé: refletir sobre o conteúdo de tudo que escuta e presencia para se tornar mais iluminada e cumprir a vontade de Deus.
3. Perseverar na fé: crer contra todas as possibilidades.

Provas de fé da BVM (provações).

1. Renúncia: renunciar a si mesma para seguir a Deus.
2. Deserto: drama anunciado e não conhecido (morte de Jesus).
3. Tempo: quando?
4. Sangue: sacrifício do Filho.
Há idades da fé! Satisfazer-se em permanecer criança na fé é parar o crescimento em Cristo! Filhos de Deus = membros do Corpo Místico de Cristo (crescer como Cristo “em sabedoria, idade e graça”).

Como crescer na fé:

1. Vontade de crer.
2. Alimentar a fé na leitura da escritura (Lectio Divina).
3. Seguir o exemplo da BVM.
4. Ser adulto na fé: tornar-se um Alter Christus.

Fatores perturbadores da Lectio Divina:

1. Pouco empenho e comodismo.
2. Acomodamento no erro (“síndrome de Gabriela”).
3. Excessivo interesse em bens materiais.
4. Vaidades, orgulhos (fama, poder, beleza, riquezas, etc.).
5. Distrações (entretenimentos, pensamentos mundanos, etc.).
6. Cansaço, doenças, desgostos, rancores, egoísmo, resistência a perdoar (inquietações físicas e espirituais).
7. Pensar demais: análise excessiva nos desvia da síntese.

Fatores auxiliadores à Lectio Divina:

1. Empenho numa vida espiritual equilibrada e sincera.
2. Desejo de conhecer a vontade de Deus para nossas vidas.
3. Viver o ensinamento de Cristo.
4. Paz e tranqüilidade física e espiritual.
5. Viver a caridade e o perdão incondicional.
6. Desapego de bens materiais.
7. Frequência aos Sacramentos.
8. Seguir e imitar o modelo de receptividade para a Lectio Divina: a Virgem Maria.



LECTIO DIVINA – LEITURA ORANTE

A Lectio Divina ou Leitura Orante da Bíblia, é uma forma de ler as Sagradas Escrituras, bebendo com mais abundância as riquezas da Palavra de Deus. Existe um método de leitura que ajuda muito a aproveitar bem mais do texto lido. O método não visa encher a cabeça de conhecimentos da Bíblia, mas tirar uma mensagem para a minha vida, para alimentar meu grande desejo de crescimento espiritual e compromisso com o Reino de Deus.

Esse método, basicamente, é composto de quatro passos: leitura, meditação, oração e contemplação. Porém, aqui vou apresentar dez passos, pois alguns são de preparação do ambiente e do espírito da pessoa para acolher melhor a leitura, e também para dar continuidade ao pós-leitura.

1- Iniciar, invocando o Espírito Santo

2- Leitura lenta e atenta do texto

Leitura é o primeiro dos quatro passos básicos. Este passo é para conhecer e amar a Palavra de Deus. Ler lentamente o texto, saboreando cada palavra ou frase. Esse passo é muito importante e não pode ser feito de maneira superficial. Ler uma vez, silenciar um pouco, ler uma segunda vez. Depois ler versículo por versículo, alternando as pessoas. Dentro dos dez passos que coloco aqui, este que segue é necessário.

3- Momento de silêncio interior, lembrando o que leu

O silêncio prepara o coração para ouvir o que Deus tem a falar. Em seguida pode se repetir apenas as frases que mais lhe chamou a atenção, uma simples repetição como está no texto.

4- Ver bem o sentido de cada frase

Feito isto, eu posso enriquecer o texto lido ligando com outros textos da Bíblia que falam do mesmo assunto, seja do Antigo ou do Novo Testamento.

5- Ampliar a visão, ligar o texto com outros textos bíblicos

Uma vez o texto bem ruminado e enriquecido, está na hora de dar o passo para a mensagem.

6- Atualizar a Palavra, ligando-a com a vida

No passo da meditação eu procuro atualizar a Palavra na minha vida. O que o texto diz para mim, para nós? Que ensinamento o Senhor quer me(nos) dar? Este momento cada um partilha o que o Espírito iluminou.

7- Respondendo a Deus (oração)

Neste passo eu me dirijo a Deus. O que o texto me faz dizer a Deus? Pode ser um pedido de perdão, porque a Palavra me levou ao reconhecimento de que não estou vivendo fielmente ou cumprindo o que ele pede. Pode ser um louvor, uma súplica, um agradecimento. A oração deve brotar do coração tocado pela Palavra.

8- Formular um compromisso

A Palavra de Deus me aponta um caminho novo de vida, algo que eu preciso viver. Pode ser um apelo de conversão ou de realizar alguma coisa por alguém, pela comunidade, etc.

9- Rezar um salmo apropriado

Escolha um Salmo que corresponda com o texto meditado e conclua com um Pai-nosso.

10- Escolher uma frase como resumo para memorizar

É como colocar um colírio em nossos olhos e agora iremos contemplar a vida, as pessoas e o mundo com os olhos de Deus. Contemplação é olhar tudo como Deus olha. Releio o texto e levo comigo uma frase que vou pensando nela o dia todo, vou ruminando a Palavra.

sábado, 26 de novembro de 2011

Oração de Oblato (I Dom. Avento B)


 
I DOMINGO DO ADVENTO

I Vésperas

V. Vinde, ó Deus em meu auxílio.
 R. Socorrei-me sem demora.
 Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
 Como era no princípio, agora e sempre. Amém. 

Hino
Eterna luz dos homens,
dos astros Criador,
ouvi as nossas preces,
de todos Redentor.
Ao ver compadecido
do mundo a perdição,
em vosso amor viestes
trazer-lhe a salvação.
Se sombra do pecado
a tudo escurecia,
Esposo, vós saístes
do seio de Maria.
Ao simples ecoar
do vosso nome eterno,
joelhos vão dobrando
o céu, a terra, o inferno.
Um dia voltareis,
Juiz e Rei de tudo.
Oh daí-nos hoje a graça,
na tentação escudo.
Ao Pai e ao Filho glória,
ao Espírito também,
louvor, honra e vitória,
Agora e sempre. Amém
Salmodia

Ant. 1 Anunciai entre os povos:
Eis que vem nosso Deus, Salvador.
Salmo 140(141),1-9

Oração nas dificuldades da vida
Da mão do anjo, subia até Deus a fumaça do incenso,
com as orações dos santos (Ap 8,4).


1 Senhor, eu clamo por vós, socorrei-me; *
quando eu grito, escutai minha voz!
2 Minha oração suba a vós como incenso, *
e minhas mãos, como oferta da tarde!

3 Ponde uma guarda em minha boca, Senhor, *
e vigias às portas dos lábios!

4 Meu coração não deixeis inclinar-se *
às obras más nem às tramas do crime;
– que eu não seja aliado dos ímpios *
nem partilhe de suas delícias!

=5 Se o justo me bate é um favor; †
porém jamais os perfumes dos ímpios *
sejam usados na minha cabeça!
– Continuarei a orar fielmente, *
enquanto eles se entregam ao mal!

=6 Seus juízes, que tinham ouvido †
as suaves palavras que eu disse, *
do rochedo já foram lançados.
=7 Como a mó rebentada por terra, †
os seus ossos estão espalhados *
e dispersos à boca do abismo.

8 A vós, Senhor, se dirigem meus olhos, *
em vós me abrigo: poupai minha vida!
9 Senhor, guardai-me do laço que armaram*
e da armadilha dos homens malvados!

- Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

Ant. Anunciai entre os povos:
Eis que vem nosso Deus, Salvador.

Ant. 2 Eis que vem o Senhor com seus santos.
e haverá grande luz nesse dia. Aleluia.

Salmo 141(142)

Vós sois o meu refúgio, Senhor!
Tudo o que este salmo descreve se realizou no Senhor durante a sua Paixão (Santo Hilário).
2 Em voz alta ao Senhor eu imploro, *
em voz alta suplico ao Senhor!
=3 Eu derramo na sua presença †
o lamento da minha aflição, *
diante dele coloco minha dor!

4 Quando em mim desfalece a minh'alma, *
conheceis, ó Senhor, meus caminhos!
– Na estrada por onde eu andava *
contra mim ocultaram ciladas.

5 Se me volto à direita e procuro, *
não encontro quem cuide de mim,
– e não tenho aonde fugir; *
não importa a ninguém minha vida!

=6 A vós grito, Senhor, a vós clamo †
e vos digo: 'Sois vós meu abrigo, *
minha herança na terra dos vivos'.
7 Escutai meu clamor, minha prece, *
porque fui por demais humilhado!

8 Arrancai-me, Senhor, da prisão, *
e em louvor bendirei vosso nome!
– Muitos justos virão rodear-me *
pelo bem que fizestes por mim.
- Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
Ant. Eis que vem o Senhor com seus santos.
e haverá grande luz nesse dia. Aleluia.

Ant. 3 O Senhor há de vir com poder.
todo homem verá sua glória.

Cântico Fl 2,6-11

Cristo, o Servo de Deus

=6 Embora fosse de divina condição, †
Cristo Jesus não se apegou ciosamente *
a ser igual em natureza a Deus Pai.

(R. Jesus Cristo é Senhor para a glória de Deus Pai!)

=7 Porém esvaziou-se de sua glória †
e assumiu a condição de um escravo, *
fazendo-se aos homens semelhante. (R.)

= Reconhecido exteriormente como homem, †
8 humilhou-se, obedecendo até à morte, *
até à morte humilhante numa cruz. (R.)

=9 Por isso Deus o exaltou sobremaneira †
e deu-lhe o nome mais excelso, mais sublime, *
e elevado muito acima de outro nome. (R.)

=10 Para que perante o nome de Jesus †
se dobre reverente todo joelho, *
seja nos céus, seja na terra ou nos abismos. (R.)

=11 E toda língua reconheça, confessando, †
para a glória de Deus Pai e seu louvor: *
'Na verdade Jesus Cristo é o Senhor!' (R.)
- Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

Ant. O Senhor Jesus Cristo se humilhou;
por isso Deus o exaltou eternamente.

Leitura breve 1Ts 5,23-24

Que o próprio Deus da paz vos santifique totalmente, e que
tudo aquilo que sois - espírito, alma, corpo - seja conservado
sem mancha alguma para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo!
Aquele que vos chamou é fiel; ele mesmo realizará isso.

Responsório breve
R. Que o universo rejubile e dê gritos de alegria:
* Pois o Senhor há de chegar R. Que o universo.
V. Eu vi um novo céu, eu vi uma nova terra;
nunca mais haverá choro nem clamor nem aflição.
* Pois o Senhor. Glória ao Pai. R. Que o universo.

Cântico evangélico (MAGNIFICAT) Lc 1,46-55

Ant. Eis, de longe está vindo o Senhor,
seu fulgor enche todo o universo.
A alegria da alma no Senhor
46 A minha alma engrandece ao Senhor * 47 e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador;
48 pois ele viu a pequenez de sua serva, *
desde agora as gerações hão de chamar-me de bendita.

49 O Poderoso fez por mim maravilhas *
e Santo é o seu nome!
50 Seu amor, de geração em geração, *
chega a todos que o respeitam;

51 demonstrou o poder de seu braço, *
dispersou os orgulhosos;
52 derrubou os poderosos de seus tronos *
e os humildes exaltou;
53 saciou de bens os famintos, *
e despediu, sem nada, os ricos.
54 Acolheu Israel, seu servidor, *
fiel ao seu amor,

55 como havia prometido aos nossos pais, *
em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre.

– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
Ant. Eis, de longe está vindo o Senhor,
seu fulgor enche todo o universo.
Preces
Invoquemos a Cristo Jesus, felicidade e alegria de todos os que o esperam; e digamos:
R. Vinde, Senhor, e não tardeis!
Esperado das nações, cheios de alegria, aguardamos vossa vinda:
vinde, Senhor Jesus. R.

Vós, que existis eternamente, antes da criação do mundo,
vinde salvar os que vivem neste mundo R.

Vós, que criastes o universo e tudo o que nele existe,
vinde renovar a obra de vossas mãos. R.

Vós, que não recusastes assumir a natureza mortal,
vinde libertar-nos do poder da morte. R.
Vós, viestes à terra para nos dar uma vida nova,,
vinde e dai-nos a vida eterna. R.

(intenções livres)


Vós, que quisestes reunir no vosso reino toda a humanidade,
vinde congregar na unidade todos os que esperam a visão da vossa face. R.

Pai nosso.

Oração
Ó Deus todo-poderoso, concedei a vossos fiéis o ardente desejo de possuir
o reino celeste, para que acorrendo com as nossas boas obras ao encontro
do Cristo que vem, sejamos reunidos à sua direita na comunidade dos justos.
Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
Conclusão da Hora
O Senhor nos abençoe,
nos livre de todo o mal
e nos conduza à vida eterna. Amém.


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

MINHA ORAÇÃO DE OBLATO

Vésperas
V. Vinde, ó Deus em meu auxílio.
 R. Socorrei-me sem demora.
 Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
 Como era no princípio, agora e sempre. Amém. Aleluia.
Hino
A Maria perdoando
e ao ladrão, na cruz, salvando,
vós me destes esperança.

Meu pedido não é digno,
mas, Senhor, vós sois benigno
não me queime o fogo eterno.

No rebanho dai-me abrigo,
arrancai-me do inimigo,
colocai-me à vossa destra.

Quando forem os malditos
para o fogo eterno, aflitos,
entre os vossos acolhei-me.

Dum espírito contrito
escutai, Senhor, o grito:
tomai conta do meu fim.

Lacrimoso aquele dia,
quando em meio à cinza fria
levantar-se o homem réu.

Libertai-o, Deus do céu!
Bom Pastor, Jesus piedoso,
dai-lhe prêmio, paz, repouso.

Vós, ó Deus de majestade,
vivo esplendor da Trindade,
entre os eleitos nos contai.

Salmodia
Ant. 1 Libertai minha vida da morte,
e meus pés do tropeço, Senhor!

Salmo 114(116 A)
Ação de graças É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus (At 14,22).
1 Eu amo o Senhor, porque ouve *
o grito da minha oração.
2 Inclinou para mim seu ouvido, *
no dia em que eu o invoquei.

3 Prendiam-me as cordas da morte, *
apertavam-me os laços do abismo;
= invadiam-me angústia e tristeza: †
4 eu então invoquei o Senhor: *
‘Salvai, ó Senhor, minha vida!’

5 O Senhor é justiça e bondade, *
nosso Deus é amor-compaixão.
6 É o Senhor quem defende os humildes: *
eu estava oprimido, e salvou-me.
7 Ó minh’alma, retorna à tua paz, *
o Senhor é quem cuida de ti!

=8 Libertou minha vida da morte, †
enxugou de meus olhos o pranto *
e livrou os meus pés do tropeço.
9 Andarei na presença de Deus, *
junto a ele na terra dos vivos.
– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
Ant. Libertai minha vida da morte,
e meus pés do tropeço, Senhor!

Ant. 2 Do Senhor é que me vem o meu socorro,
do Senhor que fez o céu e fez a terra.

Salmo 120(121)
Deus protetor de seu povo Nunca mais terão fome nem sede. Nem os molestará o sol nem algum calor ardente (Ap 7,16).
1 Eu levanto os meus olhos para os montes: *
de onde pode vir o meu socorro?
2 ‘Do Senhor é que me vem o meu socorro, *
do Senhor que fez o céu e fez a terra!’

3 Ele não deixa tropeçarem os meus pés, *
e não dorme quem te guarda e te vigia.
4 Oh! não! ele não dorme nem cochila, *
aquele que é o guarda de Israel!

5 O Senhor é o teu guarda, o teu vigia, *
é uma sombra protetora à tua direita.
6 Não vai ferir-te o sol durante o dia, *
nem a lua através de toda a noite.

7 O Senhor te guardará de todo o mal, *
ele mesmo vai cuidar da tua vida!
8 Deus te guarda na partida e na chegada. *
Ele te guarda desde agora e para sempre!
– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
Ant. Do Senhor é que me vem o meu socorro,
do Senhor que fez o céu e fez a terra.

Ant. 3 Vossos caminhos são verdade, são justiça,
ó Rei dos povos todos do universo!

Cântico Ap 15,3-4
Hino de adoração

3 Como são grandes e admiráveis vossas obras, *
ó Senhor e nosso Deus onipotente!
– Vossos caminhos são verdade, são justiça, *
ó Rei dos povos todos do universo!

(R. São grandes vossas obras, ó Senhor!)

=4 Quem, Senhor, não haveria de temer-vos, †
e quem não honraria o vosso nome? *
Pois somente vós, Senhor, é que sois santo! (R.)
= As nações todas hão de vir perante vós, †
e prostradas haverão de adorar-vos, *
pois vossas justas decisões são manifestas! (R.)
– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.(R.)
Ant. Vossos caminhos são verdade, são justiça,
ó Rei dos povos todos do universo!

Leitura breve 1Cor 2,7-10a
Falamos da misteriosa sabedoria de Deus, sabedoria escondida, que, desde a eternidade, Deus
destinou para nossa glória. Nenhum dos poderosos deste mundo conheceu essa sabedoria. Pois,
se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória. Mas, como está escrito, o
que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram, nem os ouvidos
ouviram, nem coração algum jamais pressentiu. A nós Deus revelou esse mistério através do
Espírito.

Responsório breve
R. O Cristo morreu pelos nossos pecados;
* Pelos ímpios, o justo e conduziu-nos a Deus.
R. O Cristo.
V. Foi morto na carne, mas vive no Espírito. * Pelos ímpios.
Glória ao Pai. R. O Cristo.
Cântico evangélico (MAGNIFICAT) Lc 1,46-55
Ant. Ó Senhor, sede fiel ao vosso amor,
como havíeis prometido a nossos pais.
A alegria da alma no Senhor
46 A minha alma engrandece ao Senhor *
47 e exulta meu espírito em Deus, meu Salvador;
48 porque olhou para humildade de sua serva, *
doravante as gerações hão de chamar-me de bendita.

49 O Poderoso fez em mim maravilhas *
e Santo é o seu nome!
50 Seu amor para sempre se estende *
sobre aqueles que o temem;

51 manifestou o poder de seu braço, *
dispersou os soberbos;
52 derrubou os poderosos de seus tronos *
e elevou os humildes;
53 saciou de bens os famintos, *
despediu os ricos sem nada.
54 Acolheu Israel, seu servidor, *
fiel ao seu amor,

55 como havia prometido a nossos pais, *
em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre.

– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
Ant. Ó Senhor, sede fiel ao vosso amor,
como havíeis prometido a nossos pais.
Preces
Bendigamos a Cristo nosso Senhor, que se compadeceu dos que choravam e enxugou suas
lágrimas. Cheios de confiança lhe peçamos:

R. Senhor, tende compaixão do vosso povo!

Senhor Jesus Cristo, que consolais os humildes e os aflitos,
olhai para as lágrimas dos pobres e oprimidos.R.
Deus de misericórdia, ouvi o gemido dos agonizantes,
e enviai os vossos anjos para que os aliviem e confortem.R.
Fazei que todos os exilados sintam a ação da vossa providência,
para que regressem à sua pátria e também alcancem, um dia, a pátria eterna.R.

Mostrai os caminhos do vosso amor aos que vivem no pecado,
para que se reconciliem convosco e com a Igreja.R.
(intenções livres)
Salvai, na vossa bondade, os nossos irmãos e irmãs que morreram,
e dai-lhes a plenitude da redenção.R.
Pai nosso.

Oração
Ó Deus, cuja inefável sabedoria maravilhosamente se revela no escândalo da cruz, concedei-nos
de tal modo contemplar a bendita paixão de vosso Filho, que confiantes nos gloriemos sempre
na sua cruz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Conclusão da Hora
O Senhor nos abençoe,
nos livre de todo o mal
e nos conduza à vida eterna. Amém.

RESPOSTA A UM E-MAIL

--- Em sex, 25/11/11, FULANO DE TAL escreveu:

De: FULANO DE TAL  (omito o autor do e-mail; chamo-o de FULANO DE TAL)
Assunto: Pense nisso... ou: responda isto!
Para:
Data: Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011, 10:27



 
Pense nisso............

Se para a Igreja a pílula do dia seguinte é considerada já um aborto, então me surgem algumas dúvidas desde o âmbito jurídico:

A punheta: é um homicídio premeditado?
O sexo oral: é canibalismo?
Podemos considerar o coito interrompido como abandono de menor?
... E o que dizer da camisinha? Seria homicídio por asfixia mecânica?
E o sexo anal? É mandar o futuro filho à merda?
=================================================================

MEU EMAIL DE RESPOSTA:


PENSEI NISSO E RESPONDO:

EU NÃO SEI SE HOUVE DOLO OU IGNORÂNCIA EM TAIS PROPOSIÇÕES, MAS...

Para os cristãos católicos, existe um novo SER quando há CONCEPÇÃO (FECUNDAÇÃO = ENCONTRO DO ESPERMATOZÓIDE COM UM ÓVULO).

Portanto, como nos casos escritos não há citação de uma LEGÍTIMA FECUNDAÇÃO, não há novo SER HUMANO, senão um conglomerado de proteínas e carbohidratos de "ponta" fosfatídica (um espermatozóide). Além de que todo aquele líquido qual está imerso, o semên, possui líquido prostático e alguns tipos de carbohidratos para preservação do genoma presente no espermatozóide.

Bem, um pouco de CIÊNCIA ajuda, não é?

QUANTO A "PÍLULA DO DIA SEGUINTE":


Os ÓVULOS deixam o ovário e partem para se fixar na parede do ÚTERO.
Que faz a pílula? Com um GRANDE CARGA HORMONAL, inibe a produção dos "HORMÔNIOS DE FIXAÇÃO" e deixa que o óvulo seja EXPELIDO JUNTO COM A MUCOSA DA PAREDE UTERINA.

Só que, como já se pressupõe, só é tomada por quem, PRATICNADO SEXO IRRESPONSAVELMENTE, permitiu a FECUNDAÇÃO e, como supracitado, HOUVE A GERAÇÃO DE UM NOVO SER!
(estas informações se encontram escritas de forma científica em qualquer bula das do "DIA SEGUINTE")

Expelir um novo SER é assassinato!


Por Eudes Inacio, filho de uma gravidez indesejada de mulher pobre, com 40 anos e que já tivera 07 filhos anteriormente (a mim) e mais um após meu nascimento!

SOU FELIZ POR NÃO TER SIDO EXPELIDO!!!!

sábado, 19 de novembro de 2011

UM RETIRO; UM ENCONTRO ESPIRITUAL

Sabedor da Sabedoria dos Monjes, dos seus conselhos e vida exemplar, na possibilidade de ter na vida os moldes e o modo beneditino como um Oblato, nos últimos dias 05 e 06 de novembro, fomos cinco amigos e eu visitar um monje.

Ao chegarmos na bela cidade, esperamo-lo rezar, pois já nos aguardava para o dejejum.

Fomos bem acolhidos, ainda que o monje não nos conhecesse pessoalmente - São Bento explica!

Apresentamo-nos, e ele, com serenidade, ouvia-nos a cada um. O que fomos ver lá? O que queríamos "beber" lá?

No dejejum, a mesa estava belíssima - e para mim, sofisticada - havia um "quê" de requinte nos alimentos (coisas de Nordeste mesmo, sem estrangeirismos) e sua distribuição tornava a refeição num ritual sagrado. - São Bento explica!

Refizemo-nos, e fomos à oração com o Breviário Beneditino - pouco distinto da Liturgia da Horas diocesana.

Partimos para o conhecimento do que o monje chama de "fisionomia de São Bento": Passamos por Nursia, Roma, Subiaco...

Voltamos à Hora Média.

Continuamos com a Fisionomia de São Bento... um caminho de aprendizado para os que desejam se tornar Oblatos Beneditinos.

Almoçamos; descansamos - nas biblioteca de vasto valor teológico, litúrgico e eclesial.

Voltamos aos estudos.

Fomos às Vésperas.

Um jantar descontraído, mas não menos prazeroso e fraterno.

Já além das 22 horas, recolhemo-nos num dos quartos, diante de uma belíssimas imagem da Virgem do Carmo, dedilhamos as contas da Coroa à Nossa Senhora.

Uma noite inesquecível.

Levantamo-nos às 6 horas.

Laudes!

Dejejum.

08 horas, Santa Missa: a Comunidade nos saudou; ajudamos no Altar do Senhor como acólitos e leitores.

Após a Missa, dispomo-nos a ajudar na Celebração do Batismo... memorável.

De volta a casa, mais partilha.

Almoçamos, com ares de despedida... que belo momento!

Partimos às 15 horas.

O padre, que nem nos conhecia, o monje, qual São Bento o faria, acolheu-nos, ensinou-nos, partilhou conosco... deu-nos de beber da fonte beneditina.

Deixei a Cidade com saudades.

Muito obrigado, Padre Bernardo Alves, OSB


Obrigado, Comunidade de Colônia Leopoldina 

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

UM CONVITE À REFLEXÃO

Eis o que nos ensina São Carlos Borromeu:

Segunda leitura do Ofício das Leituras, hoje, logo cedo.

Do Sermão proferido no último 
sínodo por São Carlos, bispo 
 (ActaEclesiae Mediolanensis, Mediolani 1599,1177-1178)
(Séc.XVI)

Não sejas como quem diz uma coisa e faz outra
Somos todos fracos, confesso, mas o Senhor Deus nos entregou meios com que, se quisermos, poderemos ser fortalecidos com facilidade. Tal sacerdote desejaria possuir uma vida íntegra, que dele é exigida, ser continente e ter um comportamento angélico, como convém, mas não se resolve a empregar estes meios: jejuar, orar, fugir das más conversas e de nocivas e perigosas familiaridades.

Queixa-se de que, ao entrar no coro para a salmodia, ao dirigir-se para celebrar a missa, logo mil pensamentos lhe assaltam a mente e o distraem de Deus. Mas, antes de ir ao coro ou à missa, que fez na sacristia, como se preparou, que meios escolheu e empregou para fixar a atenção?

Queres que te ensine a caminhar de virtude em virtude e como seres mais atento ao ofício, ficando assim teu louvor mais aceito de Deus? Escuta o que digo. Se ao menos uma fagulha do amor divino já se acendeu em ti, não a mostres logo, não a exponhas ao vento! Mantém encoberta a lâmpada, para não se esfriar e perder o calor; isto é, foge, tanto quanto possível, das distrações; fica recolhido junto de Deus, evita as conversas vãs.

Tua missão é pregar e ensinar? Estuda e entrega-te ao necessário para bem exerceres este encargo. Faze, primeiro, por pregar com a vida e o comportamento. Não aconteça que, vendo-te dizer uma coisa e fazer outra, zombem de tuas palavras, abanando a cabeça.

Exerces cura de almas? Não negligencies por isso o cuidado de ti mesmo, nem dês com tanta liberalidade aos outros que nada sobre para ti. Com efeito, é preciso te lembrares das almas que diriges, sem que isto te faça esquecer da tua.

Entendei, irmãos, nada mais necessário aos eclesiásticos do que a oração mental que precede, acompanha e segue todos os nossos atos: Salmodiarei, diz o Profeta, e entenderei (cf. Sl 100,1 Vulg.). Se administras os sacramentos, ó irmão, medita no que fazes; se celebras a missa, medita no que ofereces; se salmodias no coro, medita a quem e no que falas; se diriges as almas, medita no sangue que as lavou e, assim, tudo o que é vosso se faça na caridade (1Cor 16,14). Deste modo, as dificuldades que encontramos todos os dias, inúmeras e necessárias (para isto estamos aqui), serão vencidas com facilidade. Teremos, assim, a força de gerar Cristo em nós e nos outros.

Agradeço à Fonte: http://www.liturgiadashoras.org 

+ + +

Possuindo eu o sacerdócio comum aos batizados, como qualquer catequista, reflito:

"Tua missão é pregar e ensinar? Estuda e entrega-te ao necessário para bem exerceres este encargo. Faze, primeiro, por pregar com a vida e o comportamento. Não aconteça que, vendo-te dizer uma coisa e fazer outra, zombem de tuas palavras, abanando a cabeça."

Eudes Inacio, sJpVM

“Dois mil anos de espera do Senhor”

04 de novembro de 2011
TEXTO DE SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ

Jesus ficou na Hóstia Santa por nós!: para permanecer ao nosso lado, para amparar-nos, para guiar-nos. - E amor somente com amor se paga. - Como não havemos de ir ao Sacrário, todos os dias, nem que seja apenas por uns minutos, para levar-Lhe a nossa saudação e o nosso amor de filhos e de irmãos? (Sulco, 686)

Nosso Deus decidiu permanecer no Sacrário para nos alimentar, para nos fortalecer, para nos divinizar, para dar eficácia ao nosso trabalho e ao nosso esforço. Jesus é simultaneamente o semeador, a semente e o fruto da semeadura: é o Pão da vida eterna.

(...)Assim espera o nosso amor, desde há quase dois mil anos. É muito tempo e não é muito tempo: porque, quando há amor, os dias voam.


Vem à minha memória uma encantadora poesia galega, uma das cantigas de Afonso X, o Sábio. É a lenda de um monge que, na sua simplicidade, suplicou a Santa Maria que lhe deixasse contemplar o céu, ainda que fosse por um instante. A Virgem acolheu seu desejo, e o bom monge foi levado ao Paraíso. Quando regressou, não reconhecia nenhum dos moradores do mosteiro: a sua oração, que lhe parecera brevíssima, havia durado três séculos. Três séculos não são nada para um coração que ama. Assim compreendo eu esses dois mil anos de espera do Senhor na Eucaristia. É a espera de um Deus que ama os homens, que nos procura, que nos quer tal como somos - limitados, egoístas, inconstantes -, mas com capacidade para descobrir seu infinito carinho e nos entregarmos a Ele por inteiro. (É Cristo que passa, 151)