domingo, 21 de agosto de 2011

O que entendemos por vontade de Deus

 Por Padre Emmanuel SJ

O texto apresentado a seguir são notas usadas pelo autor em um curso sobre Discernimento Espiritual. Baseia-se em vários autores e em notas pessoais, e não foi escrito para publicação. Por este motivo, faltam muitas referências. A inspiração principal vem de um artigo do Pe. Michel Rondet SJ, publicado na revista francesa CHRISTUS, octobre, 1989, nº 144, pp.393-401, cujo título é: DEUS TEM UMA VONTADE PARTICULAR PARA CADA UM DE NÓS?

 1. Discernimento: optar e comprometer-se
 O Pe. Cabarrus define o discernimento como a ousadia de deixar-se levar (Cf CABARRUS, CARLOS: “A pedagogia do discernimento – a ousadia de deixar-se levar”. São Paulo: Loyola, 1991). E uma ousadia porque a pessoa deixa-se levar por Deus por caminhos que muitas vezes a razão não pode enquadrar em suas categorias lógicas pra garantir sua segurança. Opta-se ousadamente, diante da liberdade, por onde não se vê, por onde se é levado. Neste sentido se reproduz a experiência de lnácio, que citamos anteriormente:

 “lnácio seguia o Espírito. Não se adiantava a ele. Deste modo era conduzido com suavidade para o desconhecido… Pouco a pouco, o caminho se abria, e ele o percorria, sabiamente ignorante, com o coração posto simplesmente em Cristo” (Nadal, Diálogos n. 17, Fontes Narrativae TI).
 Esta ousadia implica em uma opção comprometida por aquilo que é a Vontade de Deus. O discernimento só se conclui quando, identificando a moção do Espírito, opto pelo caminho que ela me aponta e a historicizo em ações concretas. Por isso, o que nos interessa no processo de eleger-comprometer-decidir-comprometer-se é oposto à cultura patológica deste tempo de exaltação do indivíduo, de narcisismo exagerado que vivemos. Nunca se teve tantas possibilidades de eleger e tão reduzida capacidade de se comprometer como hoje. O ideal parece ser eleger tudo e não se comprometer com nada optar sem renunciar. Ser livres de tudo e livres para nada. (cf Carlos Dominguez Morano… “Los registros del deseo – Del afecto, el amor y otras pasiones” – BILBAO: Desclée de Brouwer, 2001).
 Os Exercícios Espirituais de Santo lnácio querem preparar e dispor a pessoa para uma eleição comprometida, que pode amadurecer-se fora e depois deles. Trata-se de optar comprometidamente para a Vontade de Deus. Por isso é importante compreender o que significa VONTADE DE DEUS.

 2. O Que significa vontade particular de Deus para mim?
 Discernir e fazer Eleição é conhecer, acolher e historicizar a vontade de Deus para mim. Por isso é muito importante entender o que significa esta expressão: vontade de Deus.


Imagens de Deus e vontade de Deus
  Deus, diante de quem existimos, não é um supercomputador capaz de programar e ter presentes milhões de destinos individuais, a quem deveríamos perguntar com medo e espanto pelo futuro. Ele é o Amor que correu o risco de chamar-nos à vida, semelhantes a ele e ao mesmo tempo diferentes, livres, para oferecer-nos a Aliança e a comunhão. Assim, reconhecer a vontade de Deus não é reconhecer uma imposição ou uma fatalidade, mas um chamado a uma criação em comum.
 A imagem de Deus que trazemos muitas vezes é marcada por traços neuróticos e perversos, que dão espaço para a crítica freudiana ao se referir ao Deus de Jesus como o Deus da criança. Se dermos o passo do Deus da criança ao Deus Vivo e Verdadeiro revelado em Jesus Cristo, não poderemos jamais nos render à sua vontade e, portanto, não estaremos em condições de fazer qualquer discernimento que seja, já que discernir é ter a ousadia de deixar-se levar pelo Deus Amor.

  Imagens de Deus e vontade de Deus
 Muitas vezes nossa imagem de Deus se aproxima mais de uma divindade pagã que do Deus de Jesus Cristo. Lembro-me sempre da pergunta chocante de Karl Rahner: será o Deus dos cristãos um Deus cristão? Devemos nos fazer algumas vezes esta pergunta, pois a imagem que muitas vezes temos de Deus – e que no Retiro já devemos a esta altura ter reelaborado – é uma imagem perversa. E uma imagem perversa de Deus impossibilitará nossa Eleição.
 Trata-se de um Deus todo-poderoso, que sabe tudo e vê tudo, diante do qual a história humana se desenrola como um espetáculo sem nenhuma surpresa, e que simplesmente espera que cada um de nós ocupe seu lugar de cúmplices que não têm nenhuma iniciativa própria. Este lugar está previsto desde toda a eternidade. Por isso nós temos que descobrir qual esta vontade e abraçá-la com urgência. Qualquer erro de decisão pode ter efeitos dramáticos, e inclusive levar à condenação eterna.
Certamente Deus tem um desígnio para nós, expresso muitas vezes nas escrituras. Por exemplo: A todos os que o receberam concedeu o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1)2). É um desígnio de salvação, que expressa o ser mais profundo de Deus: um amor que se dá e se comunica para que todos tenham vida em abundância (Jo 10,10). E porque é uma vontade de Aliança, só pode ser dirigido a pessoas livres.
Assim, há um desejo de Deus dirigido pessoalmente a cada um de nós. Se Deus se manifesta pelo Verbo Encarnado, sua Palavra, é para ser escutado por nós. Se Deus nos chama a ser filhos no Filho Único, é porque certamente espera que nos expressemos em uma palavra que venha unir-se à sua. A revelação de seu amor pode fazer nascer em nós esta palavra. Compete a nós pronunciá-la livremente. De maneira alguma ela nos é ditada por Deus.
Dito de outro modo, ao criar-nos à sua imagem e semelhança, Deus chama cada um a dar a esta imagem uma ressonância particular. Como Jesus deu um rosto humano à imagem do Pai, cada um de nós é chamado a refletir em sua vida traços da Santidade de Deus.

[Fonte: blog.cancaonova.com]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Catequeses sobre a Igreja II

[por Dom Henrique Soares, Bispo Auxiliar de Aracaju]

Caros Irmãos e irmãs, 
            A Carta aos Efésios apresenta a Igreja como um edifício construído «sobre a base dos apóstolos e profetas, sendo a pedra angular o próprio Cristo» (2,20). No Apocalipse, o papel dos apóstolos, e mais especificamente o dos Doze, é esclarecido com a perspectiva escatológica da Jerusalém celeste, apresentada como uma cidade cuja muralha «assenta-se sobre doze pedras, que levam os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro» (21,14). Os Evangelhos coincidem em narrar que o chamado aos apóstolos marcou os primeiros passos do ministério de Jesus, após o batismo recebido pelo Batista nas águas do Jordão.  
            Segundo a narração de Marcos (1,16-20) e de Mateus (4,18-22), o cenário do chamado aos primeiros apóstolos é o lago da Galiléia. Jesus acaba de começar a pregação do Reino de Deus, quando seu olhar dirige-se a dois pares de irmãos: Simão e André, São Tiago e João. São pescadores, dedicados a seu trabalho cotidiano. Lançam as redes, reparam-nas. Mas lhes espera outra pesca. Jesus os chama com decisão e eles o seguem com prontidão: a partir de agora serão «pescadores de homens» (cf. Mc 1,17; Mt 4,19). Lucas, apesar de seguir a mesma tradição, oferece uma narração mais elaborada (5,1-11). Mostra o caminho de fé dos primeiros discípulos, precisando que o convite ao seguimento lhes chega depois de ter escutado a primeira pregação de Jesus, e depois de ter experimentado seus primeiros sinais prodigiosos. Em particular, a pesca milagrosa constitui o contexto imediato e oferece o símbolo da missão de pescadores de homens que se lhes confio. O destino destes «chamados», a partir de agora, ficará intimamente ligado ao de Jesus. O apóstolo é um enviado, mas antes ainda é um «especialista» em Jesus. 
            Este aspecto é sublinhado pelo evangelista João com os futuros apóstolos. Aqui o cenário é diferente. O encontro acontece nas margens do Jordão. A presença dos futuros discípulos, que como Jesus vieram da Galiléia para viver a experiência do batismo administrado por João, ilumina seu mundo espiritual. Eram homens em espera do Reino de Deus, desejosos de conhecer o Messias, cuja vinda era anunciada como algo eminente. É-lhes suficiente que João Batista assinale Jesus como o Cordeiro de Deus (cf. Jo 1,36), para que surja neles o desejo de um encontro pessoal com o Mestre. O diálogo de Jesus com seus primeiros dois futuros apóstolos é muito expressivo. À pergunta: «Que buscais?», respondem com outra pergunta: «Rabbi - que quer dizer “Mestre” - onde moras?». A resposta de Jesus é um convite «Vinde e vede» (cf. Jo 1,38-39). Vinde para poder ver. A aventura dos apóstolos começa assim, como um encontro de pessoas que se abrem reciprocamente. Para os discípulos começa um conhecimento direto do Mestre. Eles vêem onde vive e começam a conhecê-lo. Não terão de ser arautos de uma idéia, mas testemunhas de uma pessoa. Antes de ser enviados a evangelizar, terão de «estar» com Jesus (cf. Marcos 3,14), estabelecendo com ele uma relação pessoal. Com este fundamento, a evangelização não é mais que um anúncio do que se experimentou e um convite a entrar no mistério da comunhão com Cristo (cf. 1Jo 13).
            A quem serão enviados os apóstolos? No Evangelho, Jesus parece restringir a Israel sua missão: «Não fui enviado mais que às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 15,24). Ao mesmo tempo parece circunscrever a missão confiada aos doze: «A estes doze Jesus enviou, depois de dar-lhes estas instruções: «Não tomeis caminho de gentis nem entreis na cidade de samaritanos; dirigi-vos mais às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 10,5). Uma certa crítica de inspiração racionalista havia visto nestas expressões a falta de uma consciência universal do Nazareno. Na realidade, têm de ser entendidas à luz de sua relação especial com Israel, comunidade da Aliança, em continuidade com a história da salvação. Segundo a espera messiânica, as promessas divinas, feitas imediatamente a Israel, chegariam a seu cumprimento quando o próprio Deus, através de seu Eleito, reunisse seu povo como faz um pastor com seu rebanho: «Eu virei salvar minhas ovelhas para que não estejam mais expostas ao perigo... Eu suscitarei para pôr-se à frente um só pastor que as apascentará, meu servo Davi: ele as apascentará e será seu pastor. Eu, o Senhor, serei seu Deus, e meu servo Davi será príncipe no meio deles» (Ez 34,22-24). Jesus é o pastor escatológico, que reúne as ovelhas perdidas da casa de Israel e sai em sua busca, pois as conhece e as ama (cf. Lc 15,4-7 e Mt 18,12-14; cf. também a figura do bom pastor em Jo 10,11ss). Através desta «reunião» anuncia-se o Reino de Deus a todos os povos: «Assim eu manifestarei minha glória entre as nações, e todas as nações verão o juízo que vou executar e a mão que porei sobre elas» (Ez 39,21). E Jesus segue precisamente este perfil profético. O primeiro passo é a «reunião» de Israel, para que todos os povos chamados a reunir-se na comunhão com o Senhor possam viver e crer.  
            Deste modo, os doze, chamados a participar da própria missão de Jesus, cooperam com o Pastor dos últimos tempos, dirigindo-se também antes de tudo às ovelhas perdidas da casa de Israel, ou seja, ao povo da promessa, cuja reunião é sinal de salvação para todos os povos, inicio da universalização da Aliança. Longe de contradizer a abertura universal da ação messiânica do Nazareno, o ter restringido ao início sua missão e a dos doze a Israel é um sinal profético eficaz. Após a paixão e a ressurreição de Cristo, este sinal será esclarecido: o caráter universal da missão dos apóstolos se fará explícito. Cristo enviará os apóstolos «por todo o mundo» (Marcos 16, 15), a «todos os povos» (Mt 28,19; Lc 24,47), «até os confins da terra» (At 1,8). E esta missão continua. Sempre continua o mandamento do Senhor de reunir os povos na unidade de seu amor. Esta é nossa esperança e este é também nosso mandamento: contribuir a essa universalidade, a esta verdadeira unidade na riqueza das culturas, em comunhão com nosso verdadeiro Senhor Jesus Cristo.

[in: domhenrique.com.br]