sábado, 16 de julho de 2011

O culto, compreendido na sua extensão e profundidade, excede o ato litúrgico. Ele abrange, no fundo, a ordem de toda a vida humana no sentido da palavra de Ireneu: o Homem será a glorificação para Deus, colocando-o na luz (e isso é o culto), se vive do olhar para Ele. Por outro lado, é reconhecido que a lei e a moral não são unidas sem serem consolidadas e inspiradas no centro da Liturgia. Que espécie de realidade encontramos então na Liturgia?
Em primeiro lugar, podemos dizer: quem exclui Deus do termo realidade é só aparentemente realista, abstraindo-se de onde nós “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28). Isto é, só sendo a relação com Deus certa, então podem todas as restantes relações – o convívio entre as pessoas e com o resto do mundo – estar em ordem. (...) Não existem sociedades sem qualquer culto. Foram precisamente os sistemas peremptoriamente ateus e materialistas que criaram novas formas de culto que, sem dúvida, não passam duma ilusão, procurando em vão ocultar a sua futilidade através dos seus triunfos bombásticos.(...)
O homem sozinho não consegue mesmo “criar” um culto fácil porque, sem Deus se revelar, ele será sempre insignificante. As palavras de Moisés ao Faraó: “Não sabemos quais serão as vítimas que ofereceremos ao Senhor” (Ex 10,26), expõem, sem dúvida, um princípio fundamental de toda a Liturgia. No pressentimento de Deus que lhe é inerente, o Homem pode, certamente, sem Deus se revelar, edificar altares “ao Deus desconhecido” (cf. At 17,23); nos seus pensamentos, ele pode elevar-se para Deus, na tentativa de o alcançar, mas a verdadeira Liturgia pressupõe que Deus responde e expõe o modo de ser venerado. Ela inclui, duma certa maneira, algo como “nomeação”. Ela não pode ser fruto da nossa fantasia e criatividade – pois assim, seria apenas um grito na escuridão ou simplesmente a afirmação de nós próprios. A Liturgia pressupõe algo de concreto diante de nós, algo que se nos revela, indicando o percurso da nossa existência. 

RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 14-15.
[em: venicreator2008.blogspot.com]

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