sábado, 23 de julho de 2011

A graça e as virtudes (Tema 28)

A graça é a fonte da obra de santificação; cura e eleva a natureza fazendo-nos capazes de agir como filhos de Deus.

1. A graça

Deus tem chamado ao homem a participar da vida da Santíssima Trindade. «Esta vocação à vida eterna é sobrenatural» (Catecismo, 1998)[1]. Para nos conduzir a este fim último sobrenatural, concede-nos já nesta terra um início dessa participação que será plena no céu. Este dom é a graça santificante, que consiste em uma «incoação da glória»[2]. Por tanto, a graça santificante:

— «é o dom gratuito que Deus nos concede de sua vida, infundida pelo Espírito Santo em nossa alma, para curá-la do pecado e santificá-la» (
Catecismo, 1999);

— «é uma
participação na vida de Deus» (Catecismo, 1997; cfr. 2 Pe 1, 4), que nos diviniza (cfr. Catecismo, 1999);

— é, portanto, uma
nova vida, sobrenatural; como um novo nascimento pelo que somos constituídos em filhos de Deus por adoção, partícipes da filiação natural do Filho: «filhos no Filho»[3];

— introduz-nos assim na intimidade da vida trinitária. Como filhos adotivos, podemos chamar Pai» a Deus, em união com o Filho único (cfr.
Catecismo, 1997);

— é graça de Cristo», porque na situação presente —isto é, após o pecado e da Redenção feita por Jesus Cristo— a graça chega-nos como participação da graça de Cristo (
Catecismo, 1997): «De sua plenitude todos temos recebido graça sobre graça» (Jo 1, 16). A graça nos configura com Cristo (cfr. Rm 8, 29);

— é
«graça do Espírito Santo», porque é infundida na alma pelo Espírito Santo[4].

A graça santificante chama-se também graça
habitual porque é uma disposição estável que aperfeiçoa a alma pela infusão de virtudes, para fazê-la capaz de viver com Deus, de agir por seu amor (cfr. Catecismo, 2000)[5].

2. A justificação

A primeira obra da graça em nós é a justificação (cfr.
Catecismo, 1989). Chama-se justificação a passagem do estado de pecado ao estado graça (ou “de justiça”, porque a graça faz-nos “justos”)[6]. Esta tem lugar no Batismo e a cada vez que Deus perdoa os pecados mortais e infunde a graça santificante (ordinariamente no sacramento da penitência)[7]. A justificação «é a obra mais excelente do amor de Deus» (Catecismo, 1994; cfr. Ef 2, 4-5).

3. A santificação


Deus não nega a ninguém sua graça, porque quer que todos os homens se salvem (1
Tm 2, 4): todos sãoMt 5, 48)[8]. A graça «é em nós a fonte da obra de santificação» (Catecismo, 1999); sana e eleva nossa natureza fazendo-nos capazes de agir como filhos de Deus[9], e de reproduzir a imagem de Cristo (cfr. Rm 8,29): isto é, de ser, cada um, alter Christus, outro Cristo. Esta semelhança com Cristo manifesta-se nas virtudes. chamados à santidade (cfr.
A santificação é o progresso em santidade; consiste na união cada vez mais íntima com Deus (cfr. Catecismo, 2014), até chegar a ser não só outro Cristo senão ipse Christus, o mesmo Cristo[10]: isto é, uma só coisa com Cristo, como membro seu (cfr. 1 Co 12, 27). Para crescer em santidade é necessário cooperar livremente com a graça, e isto requer esforço, luta, por causa da desordem introduzida pelo pecado (o fomes peccati). «Não há santidade sem renúncia e sem combate espiritual» (Catecismo, 2015)[11].

Em conseqüência, para vencer na luta ascética, antes de mais nada há que pedir a Deus a graça mediante a oração e a mortificação —«a oração dos sentidos»[12]– e a receber nos sacramentos[13].


A união com Cristo só será definitiva no Céu. Há que pedir a Deus a graça da perseverança final: isto é, o dom de morrer em graça de Deus (cfr.
Catecismo, 2016 e 2849).

4. As virtudes teologais


A
virtude, em general, «é uma disposição habitual e firme a fazer o bem» (Catecismo, 1803)[14]. «As virtudes teologais referem-se diretamente a Deus. Dispõem aos cristãos a viver em relação com a Santíssima Trindade» (Catecismo, 1812). «São infundidas por Deus na alma dos fiéis para fazê-los capazes de agir como filhos de Deus» (Catecismo, 1813)[15]. As virtudes teologais são três: fé, esperança e caridade (cfr. 1 Co 13, 13).

A
«é a virtude teologal pela que cremos em Deus e em tudo o que Ele nos disse e revelou, e que a Santa Igreja nos propõe» (Catecismo, 1814). Pela fé «o homem entrega-se inteira e livremente a Deus»[16], e se esforça por conhecer e fazer a vontade de Deus: «O justo vive da fé» (Rm 1,17)[17].

— «O discípulo de Cristo não deve só guardar a fé e viver dela, senão também professá-la,  testemunhá-la com firmeza e difundi-la» (
Catecismo, 1816; cfr. Mt 10,32-33).

A
esperança «é a virtude teologal pela que aspiramos ao Reino dos céus e à vida eterna como felicidade nossa, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não em nossas forças, mas nos auxílios da graça do Espírito Santo» (Catecismo, 1817)[18].

A
caridade «é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo e a nosso próximo como a nós mesmos por amor de Deus» (Catecismo, 1822). Este é o mandamento novo de Jesus Cristo: «que vos ameis uns a outros como eu vos amei» (Jo 15,12)[19].

5. As virtudes humanas

«As
virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais do entendimento e da vontade que regulam nossos atos, ordenam nossas paixões e guiam nossa conduta segundo a razão e a fé. Proporcionam facilidade, domínio e satisfação para levar uma vida moralmente boa» (Catecismo, 1804). Estas «se adquirem mediante as forças humanas; são os frutos e os gérmenes dos atos moralmente bons» (Catecismo, 1804)[20].

Entre as virtudes humanas há quatro chamadas
cardeais porque todas as demais se agrupam em torno delas. São a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança (cfr. Catecismo, 1805).

— A
prudência «é a virtude que dispõe a razão prática a discernir em toda circunstância nosso verdadeiro bem e a eleger os meios retos para o realizar» (Catecismo, 1806). É a «regra reta da ação»[21].

— A
justiça «é a virtude moral que consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido» (Catecismo 1807)[22].

— A
fortaleza «é a virtude moral que assegura nas dificuldades a firmeza e a constância na busca do bem. Reafirma a resolução de resistir às tentações e de superar os obstáculos na vida moral. A virtude da fortaleza faz capaz de vencer o temor, inclusive à morte, e de fazer frente às provas e às perseguições. Capacita para ir até a renúncia e o sacrifício da própria vida por defender uma causa justa» (Catecismo, 1808)[23].

— A
temperança «é a virtude moral que modera a atração dos prazeres e busca o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos» (Catecismo, 1809). A pessoa temperada orienta para o bem seus apetites sensíveis, e não se deixa arrastar pelas paixões (cfr. Sir 18, 30). No Novo Testamento é chamada "moderação" ou "sobriedade" (cfr. Catecismo, 1809).

Com respeito às virtudes morais, afirma-se que
in medio virtus. Isto significa que a virtude moral consiste em um meio entre um defeito e um excesso[24]. In medio virtus não é uma chamada à mediocridade. A virtude não é o meio-termo entre dois ou mais vícios, mas a retidão da vontade que —como um cume— se opõe a todos os abismos que são os vícios[25].

6. As virtudes e a graça. As virtudes cristãs

a) As feridas deixadas pelo pecado original na natureza humana dificultam a aquisição e o exercício das virtudes humanas (cfr.
Catecismo, 1811)[26]. Para adquiri-las e praticá-las, o cristão conta com a graça de Deus que sana a natureza humana.

A graça, ademais, ao elevar a natureza humana a participar da natureza divina, eleva essas virtudes ao plano sobrenatural (cfr.
Catecismo, 1810), levando a pessoa humana a atuar segundo a reta razão iluminada pela fé: em uma palavra, a imitar a Cristo. Deste modo, as virtudes humanas chegam a ser virtudes cristãs[27].

7. Os dons e frutos do Espírito Santo

«A vida moral dos cristãos está sustentada pelos
dons do Espírito Santo. Estes são disposições permanentes que fazem o homem dócil para seguir os impulsos do Espírito Santo» (Catecismo, 1830)[28]. Os dons do Espírito Santo são (cfr. Catecismo, 1831):

1º dom de sabedoria: para compreender e julgar com acerto a respeito dos desígnios divinos;


2º dom de entendimento: para a compreensão da verdade sobre Deus;


3º dom de conselho: para julgar e seguir as ações singulares os desígnios divinos;


4º dom de fortaleza: para acometer as dificuldades na vida cristã;


5º dom de ciência: para conhecer a ordenação das coisas criadas a Deus;


6º dom de piedade: para comportar-nos como filhos de Deus e como irmãos de nossos irmãos os homens, sendo outros Cristos;


7º dom de temor de Deus: para recusar todo o que possa ofender a Deus, como um filho recusa, por amor, o que pode ofender a seu pai.


Os
frutos do Espírito Santo «são perfeições que formam em nós o Espírito Santo como primícias da glória eterna» (Catecismo, 1832). São atos que a ação do Espírito Santo produz habitualmente na alma. A tradição da Igreja enumera doze: «caridade, gozo, paz, paciência, longanimidade, bondade, benignidade, mansidão, fidelidade, modéstia, continência, castidade» (Ga 5, 22-23).

8. Influência das paixões na vida moral

Pela união substancial da alma e do corpo, nossa vida espiritual —o conhecimento intelectual e o livre querer da vontade— encontra-se sob o influxo (para bem ou para mau) da sensibilidade. Este influxo manifesta-se nas paixões que são impulsos da sensibilidade que inclinam a fazer ou a não fazer em razão do que é sentido ou imaginado como bom ou como mau» (
Catecismo, 1763). As paixões são movimentos do apetite sensível (irascível e concupiscível). Podem-se chamar também, em sentido amplo, “sentimentos” ou “emoções”[29].

São paixões, por exemplo, o amor, a ira, o temor, etc. «A mais fundamental é o amor acordado pela atração do bem. O amor causa o desejo do bem ausente e a esperança de obtê-lo. Este movimento culmina no prazer e o gozo do bem possuído. A apreensão do mal causa o ódio, a aversão e o temor ante o mal que pode sobrevir. Este movimento culmina na tristeza por causa do mal presente ou na ira que se opõe a ele» (
Catecismo, 1765).

As paixões influem muito na vida moral. «Em si mesmas, não são boas nem más» (
Catecismo, 1767). «São moralmente boas quando contribuem a uma ação boa, e más no caso contrário» (Catecismo, 1768)[30]. Pertence à perfeição humana que as paixões estejam reguladas pela razão e dominadas pela vontade[31]. Após o pecado original, as paixões não se encontram submetidas ao império da razão, e com freqüência inclinam a realizar o que não é bom[32]. Para orientá-las habitualmente ao bem se precisa da ajuda da graça, que cura as feridas do pecado, e a luta ascética.

A vontade, se é boa, utiliza as paixões ordenando ao bem[33]. Em contrapartida, a má vontade, que segue ao egoísmo, sucumbe às paixões desordenadas ou as usa para o mal (cfr.
Catecismo, 1768).

Francisco Díaz



Bibliografia básica


Catecismo
da Igreja Católica, 1762-1770, 1803-1832 e 1987-2005.

Leituras recomendadas

São Josemaria, Homilia
Virtudes humanas, em Amigos de Deus, 73-92.
[opusdei.org.br]

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