quarta-feira, 30 de março de 2011

Ser Igreja, ser Esposa de Cristo

A relação de Cristo e a Igreja é apresentada como relação esponsal. Importa considerar esse tema eclesiológico quanto a suas raízes bíblicas. Nesta primeira parte, é apresentada a relação esponsal entre Iahweh e o seu povo no Antigo Testamento. Afinal, o tema da Igreja-Esposa brota da Sagrada Escritura. Foi desenvolvido ao longo da tradição cristã, ajuda a considerar a Igreja como uma realidade própria que não surge de uma soma de membros, mas cuja personalidade é um verdadeiro mistério que nos leva ao íntimo de seu ser, e põe em consideração o fim último e central do mistério criador e redentor, ou seja, a união de Deus com os homens.

O termo relação esponsal deriva do latim (spondere, que significa prometer, obrigar-se a, dar garantia). Portanto, refere-se a responder eassumir a sua parte no engajamento. Importa verificar a relação esponsal, ou seja, a esponsalidade no que se refere ao amor de Deus a seu povo.Evidente está a não-confusão com os esponsais, ou seja, a promessa decasamento feita um bom tempo antes das núpcias.

Cabe lembrar que Bíblia é Palavra de Deus em linguagem humana. Ao apresentar notas e características da imagem de Deus, parte de conceitos e aspectos que o homem vive. Deus fala numa linguagem em que se possa fazer entender. Deus revela-se através de conceitos e noções conhecidas. Assim, temos o conceito de Deus-Esposo.
Na Bíblia, o amor de Deus por Israel é comparado ao do noivo por sua noiva, ou do esposo pela esposa (Os 2,16; Jr 2,2.30-37; 3,1-13; Ez 16,8). Deus tem “ciúmes” por causa de Israel infiel; por isso castiga-o, mas também lhe promete um coração novo (Jr 30,17; 31,2-4.21-22; Ez 16,53-63) e novas bodas após o castigo do exílio (Os 2,16-25; 3,1-5; Lm 1,1-21; Is 49,14-21; 50,1-2; 51,17s; 54,1-10; Ct 1,1s). João Batista chama Jesus de noivo (Jo 3,29; Ef 5,22s), sendo ele o amigo do noivo. Em Cristo, Deus realiza as bodas definitivas com a Igreja, que é a noiva (2Cor 11,2) ou esposa de Cristo (Ap 21,9). Por isso, o Reino é uma festa de casamento (Mt 22,1-14; 25,1-13; Lc 14,16-24; Jo 2,1-11; 3,25-30; Mt 9,14-15; Ef 5,25s; Gl 4,21-23; 2Cor 11,1-3).
Na compreensão do Antigo Testamento, pouco a pouco, são feitas considerações da aliança entre Yahweh e Israel com características nupciais. Já no Novo Testamento, distintos testemunhos nos dão a compreensão da Nova Aliança com característica nupcial, na qual Cristo é o Esposo e, aos poucos, aparece a Igreja como a Esposa. Importa apresentar esse percurso do Antigo e do Novo Testamentos, com o estudo dos principais textos considerados importantes para uma fundamentação da união esponsal entre Deus e a Igreja. O presente artigo detém-se no Antigo Testamento, onde a imagem de Deus-Esposo tem muita importância, porque ajudou Israel no conhecimento do ser e do agir de Deus. 
Deus criou tudo por amor. Fez o homem à sua imagem e semelhança. Em Adão, todos nós somos a esposa do Esposo. Deus preparou a esposa desde o início da criação. Satanás separou a criatura do Criador, a esposa do Esposo: o pecado rompe a harmonia, a unidade do amor.
Coordenadas a partir da fundamentação veterotestamentária

O que se percebe, numa leitura do Antigo Testamento, ao referir-se a esponsalidade de Deus com seu povo, é que não é fácil compreender e manifestar o paradoxo que se estabelece entre a cólera e o amor. Um exemplo disso encontra-se em Oséias:

Como poderia eu abandonar-te, ó Efraim, entregar-te, ó Israel? Como poderia eu abandonar-te como a Adama, tratar-te como a Seboim? Meu coração se contorce dentro de mim, minhas entranhas comovem-se. Não executarei o ardor de minha ira, não tornarei a destruir Efraim, porque eu sou um Deus e não um homem, eu sou santo no meio de ti, não retornarei com furor (Os 11, 8-9).

O profeta tem uma noção que o ajuda a compreender como o castigo e a salvação podem coexistir lado a lado. Na desgraça Israel lembrar-se-á do tempo em que era feliz: “Quero voltar ao meu primeiro marido, pois eu era outrora mais feliz do que agora” (Os 2, 9b).

Na maior parte dos textos proféticos que utilizam a imagem do Deus-Esposo, e que manifestam a cólera divina, aparece bem claro que a última palavra não pertence à ira, nem à rejeição, mas ao amor. O castigo e o sofrimento foram uma etapa necessária para que a esposa infiel pudesse dar-se conta da situação miserável e de infidelidade a que a levaram suas depravações. O esposo está à espera.

Porque o teu esposo será o teu criador, Iahweh dos exércitos é o seu nome. O Santo de Israel é o teu redentor. Ele se chama o Deus de toda a terra. Como a uma esposa abandonada e acabrunhada Iahweh te chamou; como à mulher da sua mocidade, que teria sido repudiada, diz o teu Deus. Por um pouco de tempo te abandonei, mas agora com grande compaixão torno a recolher-te. Em um momento de cólera, escondi de ti o meu rosto, mas logo me compadeci de ti, levado por um amor eterno, diz Iahweh, o teu redentor (Is 54, 5-8).


O Cântico dos Cânticos apresenta a união esponsal entre Deus e o Povo de Israel, prefigurando, dessa forma, o mesmo tipo de união que existirá na Nova Aliança entre Cristo e a Igreja. A fé cristã professa que, em Jesus, acontece o cumprimento de todas as promessas do Antigo Testamento, as quais constituíam a esperança do povo de Israel. Dentre essas, pode-se salientar a de fidelidade mútua entre Deus e o povo: “Vós sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus” (Ex 6,7). O que vem apresentado no Cântico dos Cânticos a Igreja aplica a sua relação com Jesus Cristo.

O salmo 45 (44) é como que a antecipação e a preparação da “nova e eterna aliança” esponsal entre Cristo e a Igreja. É um salmo messiânico e entra tão claramente na categoria de poesia literalmente nupcial como o Cântico dos Cânticos atribuído a Salomão e, ao mesmo tempo, por nós cristãos, fala de Cristo.
 
Deus ama a cada pessoa de maneira pessoal, íntima e profunda, e quer uma resposta igual. A Aliança feita no Sinai, e tantas vezes renovada, não era observada plenamente. Diante das inúmeras infidelidades do povo, Deus poderia rejeitar para sempre esse povo (sua esposa) por ser pecador e impenitente. Mas, sobrevém a novidade consoladora manifestada especialmente nos profetas: Deus fará nova Aliança, na qual predominem o amor e o conhecimento íntimo de Deus. A mudança será feita pelo próprio Deus no coração do homem (cf. Jr 31,31-34; Ez 36, 24-28). Essa nova Aliança realiza-se plenamente com a vinda e na pessoa de Jesus Cristo. Ao assumir a natureza humana na encarnação, ele desposa, de maneira profundamente íntima, toda ahumanidade.
 
[A ESPONSALIDADE DE CRISTO COM A IGREJA. Manoel Augusto Santos & Edson Pereira. Revista Teocomunicação. PUCRS; 2007. v 37, n 158.]

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