domingo, 27 de março de 2011

Lex orandi, Lex credendi

O adágio em seu contexto original

A expressão, consagrada como verdadeiro axioma*, encontra-se originalmente no opúsculo conhecido como Indiculus de gratia Dei [Pequeno catálogo sobre a graça de Deus], oriundo da Cúria Romana, no séc. V, por muito tempo atribuído ao Papa Celestino I, hoje considerado unanimemente pela crítica como da autoria de Próspero de Aquitânia**. 
Próspero († depois de 455) foi um leigo com boa formação teológica.
Embora atraído para Marselha pela fundação do mosteiro de Vítor deLérins, nunca se tornou monge. Quando iniciou a polêmica semipelagiana, entrou em contato epistolar com Agostinho que lhe enviou duas de suas obras: o De predestinatione sanctorum (A predestinação dos santos) e o De dono perseverantiae (O dom da perseverança).
Em 431 foi a Roma, onde obteve de Celestino I uma carta aos bispos da Gália, esclarecendo sobre a heresia dos mosteiros da Provença.Volta a Marselha, onde fica até a morte de João Cassiano (440), quando se muda para Roma. Lá se põe a serviço do Papa Leão Magno.
O semipelagianismo é uma reformulação moderada do pelagianismo. Pelágio († 427) negara a necessidade da graça para que o ser humano possa realizar o bem. Agostinho saiu em defesa da absoluta prioridade da graça. Os semipelagianos, temendo que a posição de Agostinho acabasse por anular o livre arbítrio, negar os méritos humanos e levara uma predestinação fatalista, procuraram um meio termo, pois estavam interessados em que não se viesse a considerar desnecessário o esforço ascético e espiritual, tão importante no monaquismo. Para eles o ser humano deve tomar a iniciativa para obter a graça. A experiência religiosa (initium fidei) está condicionada e é proporcional ao esforço humano. Contra os semipelagianos, Próspero sai em defesa da posição de Agostinho. Dado seu prestígio junto aos papas, Próspero teve oportunidade de exercer sua influência contra o semipelagianismo não sónas disputas locais. Em sua época romana redigiu sua obra mais famosa o Indiculus de gratia Dei, também denominado Capitula de gratia, que é a obra que aqui nos interessa.
Ela é uma coletânea de textos para provar a necessidade da graça para o “início da fé”. Como os adversários aceitavam a autoridade papal, os cap. 1-6 recolhem textos dos papas Inocêncio I (401-417) e Zózimo (417-418), razão por que, durante muito tempo, o Indiculus foi atribuído a Inocêncio I e gozou de prestígio magisterial. O cap. 7 traz as decisões do Concílio de Cartago, de 418, e no cap. 8 – que aqui interessa mais especificamente – Próspero argumenta a partir da “norma do orar”.
Leiamos o texto:
Além dessas decisões invioláveis da beatíssima Sé Apostólica, com as
quais os piedosíssimos Padres, rejeitando o orgulho da pestífera novidade,
nos ensinaram a atribuir à graça de Cristo tanto os inícios da boa
vontade, quanto os progressos devidos a esforços louváveis e a perseverança
neles até o fim, consideremos também os sacramentos das
súplicas sacerdotais, que, transmitidos pelos apóstolos, são celebrados
uniformemente em todo o mundo e em toda a Igreja católica, para que
a norma do orar estabeleça a regra do crer (UT LEGEM CREDENDI LEX STATUAT
SUPPLICANDI).
Quando quem preside as santas assembléias desempenha a missão
que lhe foi confiada, apresenta à divina clemência a causa do gênero
humano e, gemendo com ele, toda a Igreja pede e suplica
– que aos infiéis seja dada a fé;
– que os idólatras sejam libertos dos erros de sua impiedade;
– que, tirado o véu que cobre o coração, a luz da verdade se manifeste
aos judeus;
– que os heréticos se arrependam, acolhendo a fé católica;
– que os cismáticos recebam o espírito de uma caridade renovada;
– que aos apóstatas sejam concedidos os remédios da penitência;
– enfim, que aos catecúmenos conduzidos aos sacramentos do novo
nascimento seja aberta a morada da misericórdia celeste.

O efeito [dessas orações] demonstra que essas coisas não são pedidas superfluamente nem em vão ao Senhor, pois Deus se digna retirar muitos de toda espécie de erros e, arrancando-os do poder das trevas,os transfere ao reino do Filho de seu amor [cf. Cl 1,13] e dos vasos dei ra faz vasos de misericórdia [cf. Rm 9,22-23]. Tudo isso é obra deDeus, como o faz perceber o fato de sempre se oferecerem a Deus ações de graças e confissões de louvor pela iluminação ou correçãodessas pessoas.
 
O argumento de Próspero parte dos “sacramentos das súplicas sacerdotais” (obsecrationum sacerdotalium sacramenta) que se realizam em toda a Igreja, desde os tempos apostólicos. Essa prática da Igreja deve ser
considerada na discussão contra o semipelagianismo, “para que a norma do orar determine a regra do crer” (isto é, a regra de fé). Quando o encarregado da oração eclesial, sustentado pela súplica de toda a Igreja, pede pela conversão dos infiéis, dos idólatras, dos judeus, dos hereges, dos cismáticos, dos penitentes, dos catecúmenos, não o faz em vão, como se mostra pelos efeitos da oração, a graça da conversão dessas pessoas. Daí se segue que toda vez que uma conversão acontece, ela é obra da graça de Deus, suplicada pela Igreja.
Embora o adágio se encontre numa oração subordinada: “para que a norma do orar estabeleça a regra do crer (ut legem credendi lex statuat supplicandi)”, tem valor de princípio universal e é a premissa maior do raciocínio de Próspero. O caráter subordinado da oração é mero fato sintático. Analisado à luz da lógica menor, o argumento de Próspero pode ser esquematizado assim:
A norma do orar determina a norma do crer;
ORA, nós oramos para que Deus conceda aos “maus” a graça necessária à conversão, e muitos se convertem;
LOGO, devemos crer que, aos “maus” que se convertem, Deus concede a graça necessária à conversão.

* axioma é “uma sentença que goza de particular dignidade (cf. grego ajxivwma) e autoridade. Enquanto princípio que não tem necessidade de ser demonstrado, ou princípio primeiro, é admitido por todos e,
portanto, absoluto, normativo. Um exemplo clássico de axioma é ‘deve-se fazer o bem e evitar o mal’”.

** Cf. PRÓSPERO DE AQUITÂNIA: De gratia Dei et libero voluntatis arbitrio, 8. PL 51, 209-210 (DS 246). A obra é mais conhecida como Indiculus de gratia Dei e também chamada de Capitula de gratia.

[Francisco Taborda SJ. http://www.faje.edu.br/periodicos/index.php/perspectiva/article/viewFile/588/1011 ]

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