domingo, 20 de março de 2011

A ditadura do relativismo

 Dom Henrique Soares da Costa. *

Esta semana revi uma antiga edição do programa Fantástico, da Rede Globo. Exibia-se a série “Ser ou não Ser”, tangenciando temas filosóficos. Como conclusão da “profunda” reflexão chegou-se à certeza que não há certeza: tudo é relativo, nada é realmente verdadeiro, tudo depende do ponto de vista da cada um. Vários jovens, com óculos de lentes multicoloridas, eram convidados a identificar as cores das coisas... E – que surpresa! – viam tudo com a cor das lentes... Eis, para os filósofos midiáticos, a grande verdade: não há verdade alguma na qual ancorar a vida, sobre a qual construir a sociedade, a partir da qual edificar uma hierarquia de valores que sirvam a todos!

É impressionante a tirania do mal que os meios de comunicação têm exercido no mundo! Tudo é desconstruído (para usar um termo de moda), tudo é relativizado, ridicularizado... O indivíduo torna-se a medida de todas as coisas; suas satisfações imediatas tornam-se o critério da verdade, do bem, do correto. Assim, caminhamos para o mundo da total solidão, uma multidão de solidões egoísticas e egocêntricas.

A idéia dos filósofos televisivos tem a superficialidade de quem não procura construir a existência sobre realidades mais profundas e, consequentemente, mais humanas. Somente pode defender uma posição assim quem nega teórica ou praticamente a existência de Deus e a sede de transcendência, que é própria do ser humano ( - “que ‘deus??”, perguntarão; “que ‘transcendência??”, indagarão).

Cada vez mais aparece claro o dever dos cristãos de darem testemunho da Verdade, que é Jesus Cristo! Muitas vezes um bom número de católicos, guiados por teólogos desavisados ou simplesmente festivos, enchem a boca para defender um certo diálogo com o “mundo pós-moderno” no sentido de adaptar o cristianismo, sua fé, sua moral, suas exigências, sua liturgia aos gostos da moda corrente. Ilusão pura! O mundo não crê em Deus, jamais aceitará o Crucificado! Aceitaria um Glorificado, desde que sem a cruz da Sexta-feira Santa e o silêncio tremendo do Sábado Santo. Mas, um Glorificado assim não é o Cristo Jesus, não é o Salvador, o Libertador... Eis: a Verdade existe, sim: é Jesus Cristo. Sobre ele se pode construir a vida de cada pessoa e da sociedade. O cristianismo pode criar cultura, sim, um lastro existencial que inspire o modo de ver e de caminhar de uma humanidade melhor.

(*) É bispo auxiliar de Aracaju-SE.

[gazetaweb.com]

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