segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CULTO CRISTÃO CATÓLICO

Como toda pessoa religiosa, assim também o cristão precisa de um lugar onde possa realizar ritualmente o seu culto e, conseqüentemente, que seja símbolo do seu encontro com Deus. Este lugar não corresponde nem ao templo hebraico nem ao pagão, pois estes espaços são caracterizados pela presença da divindade e é esta presença que os torna “sagrados” e sacralizantes. O lugar do culto cristão não é identificado pela presença da divindade, mas pelo que nele se realiza, isto é, a celebração do mistério.
Nele o Cristo está presente pela força de sua palavra e os fiéis se reúnem no seu nome porque são convidados a fazer memória Dele. “Fazei isto em memória de mim.” (Lc. 22,19) – “Onde dois ou três estão reunidos no meu nome, lá estou eu no meio deles.” (Mt. 18,20).
Nos templos o encontro com os fiéis é casual. Para os cristãos é a reunião que define o espaço, o templo, compreendido como lugar da presença divina. Os fiéis são as pedras desse edifício. Paulo VI tem uma frase que resume isso: “Se a Igreja é o lugar de uma divina presença, este lugar é a assembléia dos fiéis...” (Paulo VI, 1965)
A eclesia significava a reunião e só mais tarde passou a designar também o lugar da reunião. Para o cristão não existe a materialização de um lugar onde Deus habita. Já Salomão, quando construiu o templo exclamou: “Mas é verdade que Deus habita na terra? Eis que os céus e os céus dos céus não vos podem conter, muito menos esta casa que eu construí!” (1Re. 2,27). E São Paulo aos atenienses diz: “Deus não mora em templos construídos pelo homem.” (At. 17,24). O verdadeiro tempo no qual Deus pode morar foi o corpo que Maria lhe ofereceu por obra do Espírito Santo. Jesus mesmo diz: “Destruí este templo e eu o reedificarei em três dias” (Mt. 26, 61). E João Evangelista faz questão de esclarecer: “Ele falava do templo do seu corpo”. (Jo. 2, 21). Por participação e pela força do batismo também o corpo do Cristão se torna templo de Deus: “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que está em vocês, que recebestes de Deus e que não vos pertenceis?” (1Cor. 6,19); “Nele também vocês sois edificados para vos tornar morada de Deus por meio do Espírito.” (Ef. 2, 22). “Também vocês são as pedras vivas na construção de um edifício espiritual...” (1 Pe. 2, 5). “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque Santo é o templo de Deus que sois vós.” (1Cor. 3,16 - 17).
Na unidade do Espírito Santo todos os cristãos constituem o corpo místico de Cristo, isto é, a Igreja. Este é o lugar do culto indicado por Jesus à samaritana. “Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade”. (Jo. 4, 23). E na liturgia o cristão expressa o seu louvor pleno, por Cristo, com Cristo, em Cristo, a Deus Pai, na unidade do Espírito Santo.
Cristo portanto é o verdadeiro lugar do culto cristão, capaz de elevar o perfeito louvor. Todavia a pessoa manifesta esta realidade espiritual servindo-se da materialidade do próprio corpo. Para obedecer ao mandado de Jesus as pessoas se reúnem com outras e acabam determinando lugares, que se tornam lugares de culto pela ação que neles se desenvolve.
Panorama histórico
Na primeira fase da história, quando Jesus ainda está presente fisicamente, os lugares de culto eram a sinagoga e o templo. Sabemos dos Evangelhos como Jesus freqüentava a sinagoga; é só lembrar o texto de Lc. 4,17 - 21: “O Espírito do Senhor está sobre mim...”
No templo hebraico Jesus ensina, principalmente de sábado, e cura os doentes. Porém todo lugar onde o Cristo Jesus está presente – como adorador do Pai e salvador dos homens – se torna lugar do culto cristão. Cada lugar na terra onde o Senhor Jesus se torna presente na comunidade e com maior ênfase onde Jesus se manifestou como homem e através de seus sinais, principalmente na sala onde realizou a ceia com os Discípulos antes de sua morte.
Segunda fase: período apostólico e pós-apostólico
Depois da ascensão de Jesus o espaço é determinado pela reunião e celebração que os cristãos faziam.
a) no contexto judaico, depois de Pentecostes, os lugares de culto dos cristãos continuam sendo os mesmos do culto dos hebreus. Estes espaços eram freqüentados pelos discípulos para a escuta da palavra e para a oração de louvor.
b) os convertidos ao cristianismo vão se distanciando gradualmente dos lugares de celebração dos hebreus, mas rompem definitivamente com os templos dos pagãos e começam a se reunir em casas particulares, usando os mesmos móveis que havia nelas.
c) A “domus eclesiae” - à medida que as comunidades cristãs iam crescendo e as casas de família tornavam-se incapazes de conter todos os que se reuniam para fazer memória de Jesus e a partilha do pão, foi necessário adquirir outros espaços, casas maiores que fossem destinadas somente para o culto. A preferência era dada à casas onde algum apóstolo já havia ensinado e partilhado o pão com a comunidade, isto para manter viva a memória daquele que testemunhou com a vida o Cristo morto e Ressuscitado. Começa neste período o processo de ritualização e sacralização inclusive do espaço e dos objetos que se destinam ao culto. Não se utilizam mais objetos de uso doméstico como anteriormente.
d) também as catacumbas, ocasionalmente, se tornam lugar de culto. As perseguições obrigam os cristãos a se proteger e portanto se reúnem nos cemitérios, geralmente escavados em grandes galerias fora dos muros da cidade.
Terceira fase: quando toda a liturgia se estrutura
À medida que a liturgia vai se estruturando, estrutura-se também o espaço celebrativo. A “domus eclesiae” se estabelece em locais fixos e acaba sendo projetada de forma que os cômodos correspondam às exigências de caráter celebrativo-litúrgico, de acolhida, de serviço e caridade. Os pobres eram contemplados sempre.
Não existe um modelo arquitetônico fixo para essas funções, mas o que importa é que esses espaços se articulem entre si.
No entanto, o espaço que merecia uma atenção maior era o da ceia, que se inspirava na sala escolhida e preparada para a ceia de Jesus e na estrutura da sinagoga, na qual era dada ênfase à proclamação e escuta da palavra e o louvor.
Outro espaço imprescindível era a sala do batismo e a fonte batismal.
A forma e as dimensões desses locais variavam muito, dependendo da situação geográfica e das necessidades locais. A aparência externa não tem valor. A estrutura da “domus eclesiae” muda quando o número de fiéis que se reúnem aumenta exageradamente. Os cristãos a partir disso se inspiram em modelos de uso civil, como a basílica. Claro que a passagem de um modelo para outro é gradual e vão se inserindo aos poucos vários elementos. Por exemplo no século III se define o lugar do bispo, através da introdução dos presbíteros e da cátedra.
João Cipriano (+ 258) lembra o ambão como um lugar alto de onde o leitor, visível a todo o povo, proclama o Evangelho.
A partir da metade do século III, o local de reunião passa a ser denominado “eclesia”, antes “eclesia” referia-se à reunião de pessoas.
A basílica
Acontece uma mudança estrutural muito grande na época de Constantino. Para um imperador que se dizia cristão, o aspecto exterior e a grandiosidade do templo eram muito importantes.
A atenção que na “domus eclesiae” era dada à celebração agora é dada ao local da celebração. A Domus eclesiae passa a ser a “Domus Dei” ou “Domus regis” e na terminologia grega “basiliké oichia”, basílica.
A forma externa e interna é da basílica civil, porém com o acréscimo do quadripórtico – adro. Sendo este edifício considerado “Domus Dei” a tendência é decorá-lo, enriquecê-lo para torná-lo digno do Rei Divino.
A decoração e iconografia têm como objetivo viabilizar e tornar compreensíveis os mistérios celebrados.
As construções seguem um padrão, não são mais livres, existem regras. O edifício é orientado conforme o percurso solar. A abside está voltada para oriente e a porta para ocidente. Além do valor simbólico existe o lado prático – a insolação.
No conjunto arquitetônico há perda de unidade, destacando cada vez mais o lugar da celebração do restante do edifício, como se este espaço fosse acessório.
Além das basílicas são construídos outros edifícios como os batistérios e os “martiria”, ou igrejas sobre os túmulos dos mártires.
O batistério
O batistério como vimos no “domus eclesiae” fazia parte da estrutura arquitetônica do edifício, também em sala própria. Como as basílicas, este local se desloca, destaca-se do conjunto arquitetônico e assume formas que eram típicas das termas, dos tepidarium e locais de banho. Geralmente são conjuntos arquitetônicos de planta centrada: redondos, poligonais, octogonais.
Os martiria
Também os túmulos dos mártires por vezes serviam como local de culto. No túmulo, ou num local ao lado se celebrava o chamado “refrigerium”, ou banquete fúnebre e mais tarde se introduziu a “fração do pão”.
O rito da “fração do pão” suplantou o banquete fúnebre e constituiu o único e novo banquete, garantia a Ressurreição memorial do mistério de Cristo.
Com o edito de Constantino, sobre estes túmulos foram edificadas basílicas capazes de conter grande número de fiéis.
As memórias
São chamadas memórias as construções erguidas nos locais onde Jesus sofreu a Paixão, morte e Ressurreição. Temos por exemplo o santo Sepulcro, ou basílica do Santo Sepulcro.
Os santuários
Como as Memórias e os Martiria, os santuários lembravam e marcavam algum acontecimento religioso. Nas fases que analisamos até agora podemos perceber que:
a) Num primeiro tempo, no contexto judeu-cristão temos a presença de elementos hebraicos e cristãos.
b) Após o primeiro período segue um outro no qual se rejeitam totalmente os elementos culturais não cristãos. “Nós não temos nem santuários nem altar”.
c) À medida que o perigo do sincretismo é afastado vão sendo recuperados elementos expressivos da religiosidade, presentes também nas outras religiões. Entre eles destacamos: o lugar, as vestes, alguns gestos e objetos rituais, o uso do incenso e a luz (vela).
d) Na idade-média, inicia-se o processo que vai privilegiando uma religiosidade genérica sem perder o Cristo como centro.
e) Destacam-se aspectos particulares, com a conseqüente perda da unidade do mistério. Isto é evidente sobretudo na iconografia e na decoração do espaço.
Os locais de culto perderam a sua originalidade.
a) A domus eclesiae se torna santuário.
b) O santuário assume também a função de “domus”. O túmulo do mártir é que faz esta transposição. O mártir é tido como o continuador do mistério do sacrifício de Cristo. O túmulo do mártir se torna altar e depois o altar se torna túmulo ou depósito de relíquias.
c) Existe uma diferença substancial na concepção espacial do domus eclesiae e os santuários. Na “domus eclesiae” é a celebração do mistério que determina a estrutura do lugar. Nos santuários é o evento ou o túmulo, ou a imagem presente que polariza e organiza o espaço em função da devoção ou da “presença”.
d) Quando a “domus eclesiae” se torna a “domus Dei” a sua organização interna se aproxima mais do santuário. E, quando no santuário o culto e a devoção se expressam através da fração do pão, ou Eucaristia o arranjo espacial também é adequado. Exemplos dessas situações os temos nas igrejas pós-tridentinas. Nestas a relação Espaço-Eucaristia não se dá pela celebração mas pela devoção Eucarística. Some o altar para dar lugar ao trono eucarístico.
Lugar sagrado que consagra
O espaço da assembléia, ou “Domus eclesiae”, quando se torna “Domus Dei” acaba sendo considerado espaço sagrado que sacraliza. Adquire importância por si mesmo e não pelo mistério que nele se celebra ou pela “eclesiae” reunida.
A simbologia se sobrepõe à função, a alegoria ao sinal, a estrutura aos fiéis. O mandato de Jesus, “Fazei isto em memória de mim” não tem mais contexto para ser celebrado.
A estrutura arquitetônica e a iconografia remetem à escatologia, ao triunfo, algo que se celebra no presbitério enquanto o povo de Deus presta atenção e expressa a sua devoção a uma certa distância, na nave. Quando se introduzem os bancos e os fiéis começam a se ajoelhar, perde-se também a imagem escatológica do povo de Deus a caminho.
[www.padrefelix.com.br]

Nenhum comentário: