sábado, 13 de novembro de 2010

A PALAVRA E SEU PODER

Tua Palavra é vida para a minha vida - I

A Palavra de Deus que, em última análise, é Cristo, é a Verdade da nossa vida! Isto significa que somente à luz da Palavra, poderemos encontrar o verdadeiro sentido da existência e, caminhando pelo caminho reto, encontrar a plenitude da vida e nela viver.

Se hoje, a angústia, verdadeiro monstro que nos ameaça, é a falta de sentido, a Palavra, que é Cristo, aparece, precisamente como o Sentido! Então, viver na Palavra é viver na verdade da própria existência, é viver a vida no sentido que Deus pensou para nossa existência e, assim, viver autenticamente, viver na verdade, sem falsear a própria vida. O fruto disso é a paz! Era isso que São Jerônimo queria dizer à Paula, sua discípula: “Que mel, que manjares podem ser mais doces que conhecer a providência de Deus, penetrar seus segredos, examinar o pensamento do Criador e ser instruído nas palavras do Senhor, objeto de zombaria dos sábios deste mundo, mas que estão cheias de sabedoria espiritual? Que outros tenham suas riquezas em outros lugares, bebam em copos engastados de pérolas, brilhem com a seda, gozem de popularidade e, por causa da variedade de prazeres, não sejam capazes de vencer sua opulência! Nossas delícias sejam meditar na lei do Senhor dia e noite, chamar à porta que se abre, receber os pães da Trindade e, com o Senhor à frente, pisar as ondas deste século”.

Nós somente seremos nós mesmos, na medida em que alicerçarmos nossa existência na Palavra do Senhor: ela nos abre o sentido da vida, o rumo da existência, a direção de nossos passos, dando-nos, assim, o acesso ao país da paz e da salvação!

Poderíamos nos perguntar: Tenho procurado pelo sentido de minha vida? Onde o encontro? Tenho esforçado-me para ver e sentir a partir da Palavra de Deus, que é o próprio Cristo? Cristo – sua pessoa, suas palavras, sua vida... – tem sido o referencial de minha existência? Tem sido minha verdade e vida da minha vida?

Mas, viver na Palavra exige freqüentar a Palavra, isto é, a leitura contínua, fiel e crente da Escritura Sagrada. É o que tradicionalmente se chama lectio divina. Trata-se da reverente, piedosa, perseverante e humilde busca da Palavra na palavra! Ler, escutar, reter, aprofundar, viver a Palavra de Deus contida na Escritura, mergulhar nela com fé e amor: nisso consiste, essencialmente, a lectio divina. É preciso que tenhamos bem claro que abrir a Escritura é encontrar a Deus; esta é o livro dos que buscam o Senhor! Como dizia Orígenes: “Nas Escrituras, com o rosto descoberto, contemplamos a glória do Senhor”.


Tua Palavra é vida para a minha vida - II

A Escritura é o livro da contemplação de Deus, é o “lugar” por excelência de oração, pois aí Deus fala e se manifesta pessoalmente a mim, coração a coração! Não basta que estejamos convencidos que Deus falou no passado; é necessário fazer um profundo ato de fé que Deus continua falando, fala no presente, que ele me fala: Deus falou, Deus fala, Deus me fala; dirige-se a mim pessoalmente, aqui e agora, dirigindo-me uma mensagem pessoal e única que enche de novo sentido e luz o meu cotidiano, por mais banal que pareça ser! Já o santo Papa Gregório Magno ensinava: “Deus não responde ao coração de cada um por revelações particulares, porque preparou uma palavra que pode solucionar todos os problemas. Na Palavra de sua Escritura, com efeito, se soubermos procurar, encontraremos resposta para cada uma de nossas necessidades... Deus recolheu na Escritura Santa tudo o que pode suceder a cada um de nós e nos deu por modelo os exemplos dos que nos precederam”. E São Bento, Pai dos monges cenobitas, exortava seus filhos: “Tendo nossos olhos abertos à luz de Deus, escutemos atentos o que diariamente nos admoesta a voz divina que clama!”

Por isso mesmo, como ensinava o reformador dos camaldolenses, Paulo Giustiniani: “O monge deve aproximar-se da Palavra, não para entreter-se, nem para estudar, mas como se subisse ao Altar de Deus, com grandes preparativos de alma e de corpo, com profundíssimo respeito”.

É claro que Deus não está aprisionado na Bíblia nem a Bíblia é o único modo de Deus nos falar! Ele é um Deus vivo que fala ora na Escritura, ora por uma inspiração interior... mas a norma de toda inspiração e de toda oração é a Bíblia!

Aqui, duas observações: 1) a lectio não é leitura espiritual. Esta pode ser feita com um piedoso livro escrito por homens piedosos; aquela é feita unicamente com a Palavra de Deus! 2) A própria oração mental e a adoração cotidiana ao Santíssimo Sacramento devem estar relacionadas com a lectio: o que Deus me falou na sua Palavra deve ser motivo de meditação e de resposta adorante!



Tua Palavra é vida para a minha vida - III


Recordemos brevemente os passos da lectio divina: (a) a lectio (leitura atenta e fiel, calma e amorosa do texto bíblico); (b) a meditatio (não significa que eu medito racionalmente, cerebralmente, sobre a Palavra, mas que a deixo entrar afetivamente no meu coração: vou saboreando-a, repetindo-a, deixando que ela se aposse de mim... vou descobrindo o coração de Deus na Palavra de Deus!) (c) a oratio (naturalmente, a meditatio torna-se oratio: aquele estar gozoso diante do Senhor, aquele saborear o Senhor em nosso coração, aquele arder de amor diante do Senhor). (d) a contemplatio (aqui Deus conduz a alma ao puro silêncio, sem palavras ou imagens, sem pensamentos ou sentimentos. É como se a alma se tornasse uma só com Deus, numa união de amor transformante). É bom deixar claro que podemos exercitar os três primeiros momentos. O último, é pura iniciativa de Deus!

Podemos nos perguntar: para que a lectio? Simplesmente para encontrar Deus na sua Palavra, que é Jesus! Não é para sabermos mais, não é para sermos melhores e mais santos... É, simplesmente, por uma questão de amor: estar com Deus, freqüentar o seu coração! A Sagrada Escritura não nos quer dizer o que devemos fazer e sim, o que somos, isto é, qual é o mistério da nossa vida. Assim, ler a Escritura significa, antes de tudo, encontrar o Deus que me convoca, que se dirige a mim na Palavra e que me abre o seu coração e, no encontro com Deus, encontrar o mistério da minha própria vida e do meu próprio eu, descobrindo o sentido da existência à luz do coração do Senhor! Pensemos bem que riqueza, que honra, que segurança, que plenitude, viver alicerçados na Palavra do Senhor, na sua santa vontade, na sua infinita sabedoria! “Bem-aventurados somos nós, ó Israel, pois aquilo que agrada a Deus a nós foi revelado!” (Br 4,4)


Tua Palavra é vida para a minha vida - IV

Uma última observação. Esta Palavra certamente vai nos colocar em crise: “Eu lhes dei a tua Palavra, mas o mundo os odiou, porque não são do mundo, como eu não sou do mundo” (Jo 17,14). Isto porque freqüentar a Escritura é como lutar com a Palavra de Deus, é colocar em crise aquilo que em mim é mundano e, portanto, alheio a Deus. Se não compreendo a Palavra, se meu coração a sente distante e a escuta com fria indiferença, é porque eu mesmo não me compreendo adequadamente! A luta com a Palavra me conduz ao encontro de Deus e, portanto, a um novo encontro comigo mesmo. De repente, Deus e a minha própria existência saltam claramente aos meus olhos! Na medida em que compreendo a Palavra de Deus, compreendo a mim mesmo de um modo todo novo! Já Santo Agostinho nos advertia: “A Palavra de Deus se opõe à tua vontade enquanto não se tornar artífice de tua salvação. Na medida em que tu mesmo fores o teu inimigo, também a Palavra de Deus o será. Torna-te amigo de ti mesmo e também a Palavra de Deus estará em harmonia contigo”.

Escutar a Palavra exige, portanto, que nos abramos a ela, arrancando do nosso coração tudo aquilo que é mundano, que é contrário à vontade de Deus a nosso respeito. Somente com esta sinceridade e seriedade diante da Palavra, a lectio será verdadeira e eficaz! Não esqueçamos que a Palavra nos julga: “Em verdade, em verdade, vos digo: quem escuta a minha Palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vem a julgamento, mas passou da morte para a vida” (Jo 5,24); “Por que não reconheceis minha linguagem? É porque não podeis escutar minha Palavra!” (Jo 8,43); “Quem me rejeita e não acolhe minhas palavras tem seu juiz: a Palavra que proferi é que o julgará no último dia” (Jo 12,47).

O Pe. Antônio Vieira, com razão, advertia: “A Palavra de Deus é tão fecunda, que nos bons faz muito fruto, e é tão eficaz que nos maus, ainda que não faça fruto, faz efeito!” No caso, efeito de morte, pois mata Deus em nós, silencia sua voz salvadora no nosso coração!

Dom Henrique Soares, Bispo da Acúfida, em: http://costa_hs.blog.uol.com.br/

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