quarta-feira, 15 de setembro de 2010

COM CRISTO E EM CRISTO

Das Homilias de São João Crisóstomo, bispo

(Hom. De gloria in tribulationibus, 2.4:

PG 51, 158-159.162-164)

(Séc.IV)

Os sofrimentos e a glória dos mártires

Consideremos a sabedoria de Paulo. Que diz ele? Eu entendo que os sofrimentos do

tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em

nós (Rm 8,18). Por que, exclama, me falais das feridas, dos tormentos, dos altares, dos

algozes, dos suplícios, da fome, do exílio, das privações, dos grilhões e das algemas?

Ainda que invoqueis todas as coisas que atormentam os homens, nada podeis mencionar

que esteja à altura daqueles prêmios, daquelas coroas, daquelas recompensas. Pois as

provações cessam com a vida presente, ao passo que a recompensa é imortal,

permanecendo para sempre.

Também isto insinuava o Apóstolo em outro lugar, quando dizia: O que no presente é

insignificante e momentânea tribulação (cf. 2Cor 4,17). Ele diminuía a quantidade pela

qualidade, e alivia a dureza pelo breve espaço de tempo. Como as tribulações que então

sofriam eram penosas e duras por natureza, Paulo se serve de sua brevidade para

diminuir-lhe a dureza, dizendo: O que no presente é insignificante e momentânea

tribulação, acarreta para nós uma glória eterna e incomensurável. E isso acontece,

porque voltamos os nossos olhares para as coisas invisíveis e não para as coisas

visíveis. Pois o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno (cf. 2Cor 4,17-

18).

Vede como é grande a glória que acompanha a tribulação! Vós mesmos sois

testemunhas do que dizemos. Antes mesmo que os mártires tenham recebido as

recompensas, os prêmios, as coroas, enquanto ainda se vão transformando em pó e

cinza, já acorremos com entusiasmo para honrá-los, convocando uma assembléia

espiritual, proclamando o seu triunfo, exaltando o sangue que derramaram, os

tormentos, os golpes, as aflições e as angústias que sofreram. Assim, as próprias

tribulações são para eles uma fonte de glória, mesmo antes da recompensa final.

Tendo refletido sobre estas coisas, irmãos caríssimos, suportemos generosamente todas

as adversidades que sobrevierem. Se Deus as permite, é porque são úteis para nós. Não

percamos a esperança nem a coragem, prostrados pelo peso dos sofrimentos, mas

resistamos com fortaleza e demos graças a Deus pelos benefícios que nos concedeu.

Deste modo, depois de gozarmos dos seus dons na vida presente, alcançaremos os bens

da vida futura, pela graça, misericórdia e bondade de nosso Senhor Jesus Cristo. A ele

pertencem a glória e o poder, com o Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos.

Amém.

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