quinta-feira, 5 de agosto de 2010

SOBRE O TEMPO


NO RITMO DOS MONGES

O tempo como mistério divino

Como se experienciava o tempo na Antigüidade


Kronos, o desapiedado pai do tempo.

Os gregos conheciam duas palavras referentes a "tempo" e, a cada um desses conceitos, eles relacionavam uma divindade. Isso mostra que, para eles, o tempo era um mistério divino, e não apenas algo exterior, podendo ser medido por um relógio.

A palavra própria para tempo era chronos. Chronos era identificado com o deus Kronos, o "desapiedado pai do tempo" (Seifert 155), filho de Urano (céu) e Gaia (terra).

Ele libertou seus irmãos do corpo da Terra, para dentro do qual Urano tinha repelido os recém-nascidos.

Assim, tornou-se o comandante dos Titãs, com sua irmã Rheia, Kronos gerou os deuses do Olimpo.

Porém, por medo de um sucessor masculino, devorou seus filhos. Apenas o filho mais novo, Zeus, conseguiu ser salvo por Rheia, que entregou ao irmão uma pedra enrolada em fraldas. Depois de crescido, Zeus obrigou o pai a vomitar seus irmãos e irmãs. Com a ajuda deles, Zeus derrotou Kronos e, em seguida, passou a governar, de cima do Olimpo, o destino dos humanos.

Ao interpretarmos esse mito, um aspecto essencial do tempo torna-se bem visível: ele devora seus filhos, pois tem medo de um sucessor; teme o futuro. Gostaria de derramar tudo na própria goela, pois o medo o caracteriza e impulsiona. Esse antigo mito grego ressalta o medo que muita gente tem de perder o controle sobre o tempo.

Realmente, até hoje, nas coisas mais normais de cada dia, podemos observar que, em um tempo que é medido somente pelo "cronômetro", nada pode desabrochar. Aí não é de se admirar que os "filhos" sejam devorados. O que não se submete ao tempo - e crianças não se deixam apertar no laço estreito do nosso tempo mensurável – é proibido de desabrochar. Submetemo-nos ao tempo mensurável.

Marcamos prazos, contando os minutos, e não paramos de olhar o relógio para ver se os outros obedecem à hora marcada e se nós mesmos chegaremos na hora combinada.

O tempo mensurável obriga-nos a ficar em um cotidiano rígido. O deus Kronos é um tirano. Hoje em dia, a maior parte das pessoas sofre, creio eu, a pressão de sua tirania. Mas o domínio de Kronos não leva a um aproveitamento efetivo do tempo. Gera apenas aflição e angústia, sem nenhuma fecundidade. Nenhuma novidade brota. Nada surge para ficar. Tudo passa freneticamente.

Em seu livro Momo, Michael Ende deu uma nova interpretação a esse mito. Ele conta uma história sobre os senhores de uma Caixa Econômica do Tempo, que oferecem a seus clientes uma conta de economizar tempo, com a qual gostariam de roubar o tempo que lhes resta. Reconheceram que Momo, a criança que vive totalmente em cada momento, é seu pior inimigo. Querem a todo custo se apoderar dele. Mas a tartaruga carrega Momo são e salvo para longe de seus perseguidores.

Os senhores grisalhos, nos seus automóveis, pisam no acelerador, mas não avançam nem um passo, enquanto Momo e sua tartaruga, mesmo andando devagarzinho, escapam aos perseguidores. Momo, a criança que sabe entregar-se a cada momento, acaba sendo mais rápido do que os senhores agitados da Caixa Econômica do Tempo. São senhores grisalhos, cinzentos, senhores sem cor e sem vida, que apenas funcionam, mas não sabem mais viver.


Kairos, o deus do momento certo

Outro termo utilizado para "tempo" na tradição grega é kairos. É o momento certo, a oportunidade, o proveito, a medida correta. Para os gregos, Kairos era um deus masculino; para os romanos, tratava-se de uma deusa, Occasio. As imagens do deus grego têm asas nos pés ou nos ombros. Ele anda nas pontas dos pés ou está em cima de rodas, e segura uma balança sobre uma navalha. Interessante é a cabeça: na frente, há um topete, mas o restante é careca.

Para os gregos, isso significava que era preciso pegar a oportunidade pelo topete. Se aquele momento passou, ninguém mais o alcança. Por isso é preciso enfrentar o Kairos e agarrá-lo, logo que aparecer. Para os pitagóricos, Kairos representa o número sete.

Isso lembra a narrativa da Criação na Bíblia. O sétimo dia, em que Deus descansa, mostra algo da qualidade atribuída a Kairos pela antiga escola de filósofos


A plenitude do tempo - o conceito bíblico

No Novo Testamento, kairos tem um significado importante. É o momento decisivo em que Deus oferece a salvação ao ser humano. Mas os humanos não reconheceram o momento da graça (cf. Lc 19,44). No evangelho de Marcos, a primeira palavra de Jesus é: "Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo" (Mc 1,15a).

Kairos é sempre aquele momento em que me encontro com Deus, em que ele quer me mostrar sua proximidade, dando-me sua graça e dedicação. Cabe a mim entregar-me a esse instante e decidir em favor da proximidade sanadora e amorosa de Deus, em vez de fugir para longe de mim mesmo e dele, para dentro de um tempo que apenas decorre.

O tempo que "se cumpre", assim entendido, é aquele em que tempo e eternidade coincidem. E o tempo ao qual Deus dá plenitude. Os místicos refletiram sobre sua plenitude, principalmente o mestre Eckhart, quando descreve como o próprio Deus imergiu no tempo, transformando-o. Pela encarnação de Deus, o tempo ganhou outra qualidade: não é mais um bem escasso, do qual o ser humano tem de aproveitar o mais possível, mas o lugar onde a criação se une com Deus. Quem está totalmente presente, mesmo em um só momento, alcança a plenitude do tempo; Deus é sua plenitude. Essa pessoa está unida consigo mesma e com Deus, e o tempo parou para ela.

Na sua segunda carta aos Coríntios, Paulo cita o profeta Isaías: "No tempo da graça eu te escutei, no dia da salvação eu te ajudei" (Is 49,8a). Depois ele afirma: "No momento favorável, eu te ouvi; no dia da salvação, eu te socorri" (2Cor 6,2a). O texto grego diz literalmente: "Agora é o tempo muito bem-vindo (kairos euprosdektos)"'.

Dektos é aquilo que se pode aceitar, aquilo que dá prazer, que é agradável. De acordo com Paulo, o tempo agradável é aquele marcado pelo beneplácito de Deus e por sua presença. É o tempo desejado, que cumpre os meus desejos de segurança, de cura, de ser salvo e remido, portanto, tem uma boa qualidade. É caracterizado por graça, amor, cura, integridade, plenitude.

Todo anseio de um tempo de salvação, de um tempo em que o ser humano é curado e realiza a sua verdadeira essência chegou à sua plenitude em Jesus Cristo. Por isso vivemos agora no tempo da graça e da benevolência divinas. Depende de nós a realização da benevolência divina em nós e a nossa plena presença para possibilitar o encontro com o Deus presente.>>


[Do Livro IM ZEITMASS DER MÖNCHE, Anselm Grün. Paulinas, 2006]

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