domingo, 22 de agosto de 2010

PARA PENSAR

(Do Blog de Dom Henrique Soares: http://costa_hs.blog.uol.com.br/)

Para pensar - I


Vivemos num mundo que refuta o Pai: refuta tudo quanto nos tutela e parece infantilizar; mundo da autonomia, no qual o homem reduz tudo ao seu horizonte e aos seus critérios. Nietzsche já revelava esta mentalidade no final do século passado: “O maior dentre os últimos acontecimentos – que Deus morreu, que a fé no Deus cristão fez-se incrível – já lançou suas primeiras sombras sobre a Europa...”

Com estas palavras terríveis, o filósofo constatava a morte de Deus na consciência do Ocidente, que o apagou de sua consciência coletiva sócio-cultural. Mas, apesar do ateísmo prático, o problema da fé em Deus não pode ser tranqüila e pacificamente descartado pelo homem; trata-se, ao invés, de uma questão que coloca em questão o próprio homem. É importante perceber que o problema da fé em Deus está associado a três grandes dimensões da existência humana:

· A origem e fundamento da vida: Experimentamos a realidade como inconsistente em si mesma (cf. Ecl 1,2-11.14). E isto nos coloca o problema de Deus. Até mesmo o panteísmo e o ateísmo são respostas a este problema. A resposta judeu-cristã a esta questão é um Deus criador, origem e fim da existência humana. Ora, a modernidade mudou a compreensão do mundo e da natureza, passando da contemplação ao pragmatismo explorador! No entanto, se olharmos bem, quanto mais a ciência avança, tanto mais se percebe a grandiosidade e, ao mesmo tempo, a fragilidade do universo... recolocando de modo insistente e incômodo a questão sobre Deus!

· O sentido da existência: A questão surge diante da consciência da morte e torna-se presente em cada experiência da falta de sentido de muitas situações da vida. Inevitavelmente surge a pergunta sobre Deus: Onde ele está? Por que se cala? Tal experiência nos faz pressentir que a resposta não se encontra neste mundo, em nossa realidade intra-mundana, abrindo-nos, então, para a busca de um Absoluto que nos possa salvar... Caso contrário o homem deve conformar-se a ser somente um grito sem resposta, uma sede não saciada, uma carência sem plenitude possível!

· A pergunta sobre o bem e o mal: Somos potencialmente capazes do melhor e do pior; por isso buscamos normas universais de conduta que nos permitem optar pelo bem. Ora, se Deus não existe, tudo é permitido, pois não é possível responder a esta pergunta fundamental: se não há um bem e um mal últimos a partir do qual avaliar e julgar toda conduta, se não há uma referência última, para além de nós mesmos, de nossa subjetividade, então é impossível justificar uma conduta moral. Não basta o sentido da dignidade humana e da solidariedade: sem uma raiz última em que fundamentar tais valores, também eles perecerão! Ora, o Deus da tradição judeu-cristã aparece como a interpelação última que nos faz sentir responsáveis pelo mundo e pelos outros: ele nos descobre o rosto do próximo; ele é o defensor das vítimas – não está nunca com o opressor, mas com o oprimido e não vê a história do ponto de vista dos vencedores, mas do ponto de vista dos massacrados. Também aqui, portanto, o mundo é obrigado a procurar um fundamento moral mais profundo e mais sólido que os humanismos secularizados que estão na moda. Nem mesmo todas as belas profissões de fé nos direitos humanos e na paz e justiça entre os povos têm conseguido livrar o mundo atual de injustiças e violências brutais e gritantes!

Nenhum comentário: