sexta-feira, 27 de agosto de 2010

NA CRUZ, O AMOR DO PAI 1

Na cruz e ressurreição, a Face amorosa do Pai - I

De modo paradoxal e misterioso, vários textos do Novo Testamento afirmam insistentemente que o amor carinhoso do Pai manifesta-se sobretudo na entrega que ele fez de seu Filho: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único...” (Jo 3, 16); “Deus é Amor. Nisto se manifestou o amor de Deus por nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo para que vivamos por ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados” (1Jo 4,8b-10).

Toda a existência humana de Jesus é revelação da paternidade amorosa de Deus. Ora, tal revelação chega ao máximo na entrega da cruz e na vitória da ressurreição. Várias vezes nos evangelhos Jesus afirma que será entregue (voz passiva): “O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens” (Mc 9,31 e par; cf. 10,33.45 e par; Mc 14,41s; Mt 26,45b-46). Este passivo, chamado “passivo divino” pelos exegetas, revela que Deus é o autor primeiro dessa entrega: é por ele, pelo Pai, que o Filho será entregue! Mas, de que modo uma tal entrega é manifestação de um Deus de Amor? Como pode uma entrega assim manifestar a paternidade de Deus? Que pai entrega seu filho?

Primeiramente, é necessário ter em mente que o Filho que será entregue é aquele no qual o Pai se compraz (cf. Mt 3,17; Mc 1,11), é o Filho amado (cf. Mc 1,11; 9,7; Mt 17,5), aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo (cf. Jo 10,36). Podemos dizer que o Filho é a alegria do Pai, é sua razão de ser – somente no Filho o Pai é Pai! Sem ele o Pai não seria amor, não poderia amar! É este Filho que o Pai entrega: o Filho único, como único era o filho de Abraão: “Toma teu filho, teu único, que amas, Isaac... e o oferecerás em holocausto...” (Gn 22,2). Assim, de modo nenhum se deve pensar um Pai frio e indiferente diante da entrega do Filho amado. Entregando o Filho, o Pai mesmo se entrega no seu ser mais íntimo, na sua paternidade! O Filho livre e amorosamente, na pura confiança, se deixa entregar, porque sabe que é o Amado do Pai: “Por isso o Pai me ama, porque dou minha vida para retomá-la. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou livremente. Tenho poder de entregá-la e poder de retomá-la; esse é o preceito que recebi do meu Pai” (Jo 8,17s).

Portanto, a entrega do Filho é por amor ao Pai e no Amor do Pai. Mas isso não significa que tal entrega foi isenta de sofrimento: foi o pecado do mundo, que levou Jesus à morte. O homem, que desde o início quis ser como Deus, levou à morte o Filho de Deus; o homem, na sua sede de autonomia, de usurpação, na sua resistência em ser como o Filho: “Restava-lhe ainda alguém: o filho amado!... ‘Este é o herdeiro. Vamos, matemo-lo, e a herança será nossa’” (Mc 12,6s). O Pai, porque é amor, como o pai do filho mais novo, respeita a liberdade do homem: é um Deus que cria espaço para a nossa liberdade; que prefere morrer na morte do seu Filho para não matar a liberdade que nos concedeu. Assim, na cruz, manifesta-se toda a força do pecado do mundo, do “não” do homem à paternidade de Deus: Judas entrega Jesus ao Sinédrio, expressando toda a traição e infidelidade ao amor (cf. Mc 14,10); o Sinédrio entrega Jesus a Pilatos, exprimindo toda deturpação da paternidade de Deus, convertendo a religião em tirania e o Deus da vida em deus de morte (cf. Mc 15,1) e Pilatos entrega Jesus à morte, traindo sua consciência pelo apego ao poder deturpado em auto-serviço (cf. Mc 15,15). O Pai respeita a liberdade humana; no seu amor onipotente, amor paterno, apresenta-se impotente para salvar o Filho “único e amado” da morte!

Na cruz o Pai com-padece com o seu Filho: imola-o por amor do mundo e, como Abraão, “não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou” (Rm 8,32). Como Abraão, o Pai de Jesus aparece imolado: o Filho entrega-se sem defesa à vontade do Pai, confiando nele. O Pai vê-se envolvido no sacrifício de seu Filho único; é sua paternidade mesma que está em jogo! Em sua dolorosa paixão, Jesus é, portanto, o Rosto do Pai, da com-paixão do Pai! Certamente o sofrimento do Pai é diverso daquele que conhecemos: o sofrimento humano é por limitação e imperfeição; o do Pai é por exuberância do seu Ser pleno, absoluta liberdade do seu agir e por superabundância de amor que livremente se deixa compadecer no drama humano do Filho eterno. A felicidade de Deus é inalterável, porque ela é plenitude de amor. Ora, é próprio de grande amor poder fazer a dor coabitar com a alegria, numa mistura na qual a felicidade superabunda e absorve a dor. A única dor incompatível com a felicidade é a causada pelo rompimento com o amado. Isto não se dá jamais em Deus! Aliás, já os rabinos de Israel intuíam este mistério quando, pensando no sofrimento de Israel, colocavam o Salmo 90,15 na boca do Deus de Israel: “Na angústia estarei com ele...” Os rabinos liam: “Com ele, estarei na angústia!” E se explicava, na Haggadah da Páscoa, comentando a passagem da sarça ardente: “O Santo - bendito seja ele - disse a Moisés: ‘Não percebes que eu habito na angústia como Israel na angústia habita? Saibas que, do lugar em que te falo, do meio dos espinhos da sarça, participo de dentro da angústia, se assim se pode falar de Adonai!”

Assim, no Pai a compaixão faz parte de sua eterna felicidade de amar: ele contempla eternamente o sofrimento do seu Cristo – acontecido no tempo da história humana – e o ama com admiração e piedade e com o coração para sempre “co-movido” de “com-paixão” e generosidade... e amando gera o Filho de seu Amor. Também na cruz o Pai gera o Filho amado! Como veremos mais adiante, é na cruz que o Filho é plenamente gerado pelo Pai na sua humanidade! Por tudo isso, contemplando o mysterium crucis, podemos exclamar: “Deus é amor!” (1Jo 4,8,16).


(Do blog de Dom Henrique Soares: http://costa_hs.blog.uol.com.br/)

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