sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Na cruz e ressurreição, a Face amorosa do Pai - II

Mas este amor imolado não estaria plenamente revelado sem a ressurreição. Um pouco antes da sua paixão Jesus pedira: “Pai, glorifica o teu nome!” E o Pai respondera: “Eu o glorifiquei e o glorificarei novamente!” (Jo 12,28) O Pai glorificará o seu nome de Pai ao ressuscitar o Filho Jesus. O Filho, na cruz, entregara tudo ao Pai, fazendo-se totalmente pobre; entregara como último gesto de total abandono, o Santo Espírito (cf. Jo 19,30). Agora, o Pai dá-lhe em plenitude este mesmo Espírito, Espírito de Glória, Espírito de Deus Pai (cf. 1Pd 4,14). É isto que São Paulo quer dizer quando afirma que Jesus foi ressuscitado pela Glória do Pai (cf. Rm 6,4) ou ressuscitado pelo Espírito Santo (cf. Rm 8,11) ou vivificado pelo Espírito (cf. 1Pd 3,18) ou ainda transformado no Espírito (cf. 1Cor 15,45). É o Espírito o Amor no qual o Pai gera o Filho e no qual o Filho é gerado pelo Pai. Ora, ressuscitando, glorificando a natureza humana do Filho Jesus, o Pai o gera como Filho na sua humanidade, Filho divinizado, Filho sentado à sua direita. Por isso mesmo os primeiros cristãos vão contemplar a ressurreição de Jesus como a maior obra do Pai, em sua paternidade: “Anunciamo-vos a Boa Nova: Deus ressuscitou Jesus, como está escrito no Salmo 2: Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei!” (At 13,32s). Ao ressuscitar Jesus, o Pai o plenifica com o Espírito no qual ele é Pai e Jesus é Filho. Agora, ressuscitado, Jesus vive somente por seu Pai, que o gera na cruz e ressurreição. Por isso mesmo João considerava a cruz e ressurreição como a hora da Glória de Jesus, hora de passar para o Pai: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai...” (Jo 13,1)

Até mesmo em sua natureza humana, antes terrestre, igual à nossa, Jesus vive agora somente pelo seu Pai, pelo Espírito de seu Pai: ele agora vive somente para o seu Pai, de modo pleno e absoluto! Toda a existência humana de Jesus é de tal modo filializada, que o Pai pode, agora, pronunciar também sobre o homem Jesus aquela palavra que desde a eternidade, no Amor, pronuncia sobre o Filho eterno: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei!” Na ressurreição o homem Jesus alcança o ápice do seu ser Filho e o Pai alcança o cume da sua paternidade em relação ao Filho feito homem. A partir de agora, para nós cristãos Deus é o “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 1,3), aquele Deus que ressuscitou Cristo dos mortos (cf. Rm 8,11; 1Cor 6,14; 2Cor 4,14). Deus é total, simples e absolutamente Pai do Filho feito homem, Jesus Cristo e Jesus ressuscitado é total e absolutamente o Filho do eterno Pai. Somente o Pai de Jesus tem direito absoluto ao título de Pai: “A ninguém na terra chameis Pai” (Mt 23,9). Ou seja, somente ao Deus de Jesus cabe com propriedade este nome de Pai. Chamar alguma criatura de pai é uma pobre analogia ao mistério infinito de Deus.

Assim, a cruz e a ressurreição - a Páscoa do Senhor - são o momento culminante da manifestação da paternidade amorosa de Deus, momento em que o Filho feito homem é plenamente gerado nas dores do parto da cruz, momento da volta à casa paterna, momento em que o Pai compassivo vem-lhe ao encontro, abraça-o com o laço do Espírito, cobre-o de beijo, com o Espírito Consolador e o reveste com a melhor veste, aquela da Glória e da imortalidade! Mais que nunca, o Pai tem somente uma palavra: “Tu és o meu Filho; eu hoje te gerei!” e o Filho somente pode exclamar: “Abbá, Pai!”


(Do blog de Dom Henrique Soares: http://costa_hs.blog.uol.com.br/)

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